29.2.12

zuccotti plaza

De novo, o povo.

13.2.12


August Sanders, 'Country Girls', 1925

11.2.12

lampedusa dictum

Estava naquele lugar da solidão que só é possível quando se está acompanhado. Estava naquele lugar de desprezo e descrédito de quem se quer o melhor. Estava naquele lugar onde tudo tinha de acabar. Como escreveu um e disse o outro, às vezes é preciso que tudo mude para que tudo fique na mesma. Estava nesse lugar e saí. Apenas para chegar depois ao sítio onde sempre tinha estado.

7.2.12

gigantes

A parada de Vitória dos Giants é um ponto alto do populismo imagético norte-americano: chuva de confetti pelos arranha-céus de downtown e o histerismo das massas vestidas de azul. César entra vitorioso no regresso à  civilização — na forma de quarenta e tal jogadores profissionais e de um treinador com mau-feitio.


6.2.12


Há alguns homens que pagam para ter mulheres.
Há algumas mulheres que têm homens que pagam para se verem livres delas.

5.2.12

os erros dos outros

Preocupei-me sempre tanto com os erros de casting dos outros e afinal,
/ de todos, /
o maior erro de casting foi o meu.

30.1.12

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21.1.12

sunday, snow day

A neve de manhã ao abrir a janela e a notícia de um suícidio no L-Train.
Inverno, por fim, de volta a casa.


20.1.12

mexico city diaries (2)

É durante a aterragem que percebemos a verdadeira dimensão da metrópole. Vinte e um milhões de habitantes espalhados por um planalto perdido entre a encosta de um vulcão adormecido e um horizonte esmagado pelo nevoeiro de uma poluição crescente. Em terra, à imagem aérea do caos urbano juntam-se os milhares de detalhes de cada esquina, quase sempre vontade mimética das anteriores e das que lhe seguirão. Uma seriação em si, código genético de uma banalidade; dado comum multiplicado até ao infinito cujo resultado é sempre igual a si mesmo. Os logótipos, as cores das fachadas, os carros, os sons, as pessoas. Tudo se repete, das casas de venda aos stands de tacos. / Cenários. / Mas são esses mesmos detalhes que depois de uma e outra vez / embora semelhantes / se tornam particulares, reconhecidos na sua unicidade que paradoxalmente é plural, de todos os que formam as partes. Pontos de referência camuflados, jogos subtis entre o viajante e a sua estranha envolvente de múltiplas dimensões, esquema de espelhos e planos. Tudo parece ser o que nem por isso é. Até que chegamos ao local do nosso destino, onde tudo é o que nem por isso parece ser.

mexico city diaries

Venho aqui pela décima vez nos últimos nove meses; ou talvez seja a nona vez nos últimos dez meses. 
Vezes por meses; ou meses por vezes. Dá igual. Uma ponte aérea entre o compromisso e o esquecimento.

16.1.12

twitter

To follow specially myself.

14.1.12

sylvia rowing, circa 1960


Row, row, row your boat,
Gently down the stream.
Merrily, merrily, merrily, merrily,
Life is but a dream.

Popular American children's song, 1852.
E assim entrámos naquilo que Borges descreve como uma dessas amizades inglesas, que começam por excluir a confidência e que muito rapidamente omitem o diálogo.


living in an anglophone world

Para quem tem a maioria da bibliografia do senhor no original em espanhol, ler Borges em inglês quase que nem é desculpável. Mas tal como a ocasião faz o ladrão, da mesma maneira a oportunidade seduz o curioso. E a pequena edição, com um par de «novas histórias entre muitos dos seus clássicos», seduziu-me. Mesmo em inglês; ou uma questão de força das circunstâncias.

11.1.12

«He and my father had entered into one of those close (the adjective is excessive) English friendships that begin by excluding confidences and very soon dispense with dialogue.»
Jorge Luis Borges, 'Tlön, Uqbar, Orbis Tertius'.
«Like all men in Babylon, I have been proconsul; like all, a slave.» 
Jorge Luis Borges, 'The Lottery in Babylon'.

10.1.12

new year's eve

Foi pelas onze da noite, quando ainda estava na lavandaria à espera que o secador de roupa terminasse, que vi pelos néones da montra passar o carro lá fora. Uma fracção de segundos. Um vulto de um homem ao volante. Ao seu lado, na fraca luz do habitáculo, uma mulher pintava os lábios com a ajuda do espelho do pára-sol. Tinha um ar concentrado e distante. Uma acção banal, repetida no quotidiano. Um fotograma de uma cena doméstica, urbana, comum que antecipa a «festa», o «evento social» e que em mim nada mais ilustrou do que um possível momento antes da desgraça; de um acidente, de uma desfiguração. Onde os outros vêem diversão unicamente antevejo tragédia. Uma tragédia em si, isto, também.

9.1.12

os irascíveis, brindemos a isso


«In May 1950, a group of New York painters wrote a letter to the Metropolitan Museum of Art protesting its anti-abstract bias in the selection of painters for the exhibit American Painting Today 1950. The letter appeared in the NY Times and the Herald Tribune. A photo of the group taken Nov. 24, 1950 appeared in Life's Jan. 15, 1951 issue, captioned Irascible Group of Advanced Artists Led Fight Against Show».

Pictured from left rear: Willem De Kooning, Adolph Gottlieb, Ad Reinhardt, Hedda Sterne; next row: Richard Pousette-Dart, William Baziotes, Jimmy Ernst, Jackson Pollock, James Brooks, Clyfford Still, Robert Motherwell, Bradley Walker Tomlin; foreground: Theodoros Stamos, Barnett Newman and Mark Rothko. Missing from photo: Weldon Kees, Fritz Bultman and Hans Hofmann. Photographed by Nina Leen for Time/Life, 1951.

2.1.12

the billiard kind (2)


«Género», sim, mas de cachimbo.
Porque o jogo oficial deste senhor era xadrez.

the billiard kind

Troquei os cigarros pelo cachimbo. Por uma questão de ritual, sobretudo. O trabalho em Downtown é exigente. As relações profissionais são complexas —talvez mais do que as tarefas em si. O cachimbo proporciona-me um momento de relaxamento, à hora de almoço em frente ao rio, ou à noite ao chegar a casa. Colocar o tabaco, pressioná-lo para a firmeza certa, acendê-lo lentamente em inalações compassadas. Deixar depois o sabor rolar na boca e expelir o fumo branco, espesso. Dos vários tipos de cachimbos prefiro o Billiard, clássico e perfeito. E dentro dos rituais do cachimbo há também os de limpeza: da raspagem da câmara do fornilho ao interior da haste com um escovilhão. Tudo parte de um todo, do tal ritual. Coisas que vêm com os anos, parece-me.


31.12.11

Sylvia writing, circa 1960


Tinha algo no seu despojamento e desapontamento que me lembrava Sylvia Plath. Depois de ler a cópia de 'The Bell Jar' que lhe ofereci disse-me que se tinha revisto demasiadamente na personagem  e mesmo com Plath visto que «até a sua máquina de escrever é igual». Não foi novidade para mim, já o sabia de antemão: parecenças & máquinas de escrever. Da mesma forma que lhe conhecia o lado subtilmente depressivo, flagrante. Agora, jogo na mesa e de cartas dadas, talvez tudo acabe bem. Ao contrário de Plath que, enfim, foi o que se viu.

a year in review (2)

Transformámo-nos em dois veteranos da nossa guerra pessoal. Entre derrotas e vitórias de guerrilha emocional nenhum ganhou muito. Ambos vítimas e carrascos, agora elementos em reconstrução, sobreviventes no espólio de uma história de amor-ódio.

30.12.11

a year in review

De todos, quem me ofendeu foi quem estava mais perto. Não os meus inimigos; se é que tenho algum por aí. Ao passo que ofensas de inimigos podem nem sequer chegar a ofender, quando o acto é perpetrado por alguém que nos é íntimo os estragos são mais ou menos consideráveis. Aos inimigos, como se sabe, não se dá o flanco. O que aprendi este ano é que àqueles que nos são tão próximos que quase se confundem connosco também não.

29.12.11

surveillance, one day ago

Saio de casa pelas seis e trinta em ponto. Ainda não é dia. Inicio a corrida com cuidado, foram algumas semanas de descanso, preguiça e desculpas esfarrapadas para mim mesmo. Passo por baixo da plataforma elevatória do Brooklyn-Queens Expressway. Por cima vejo os helicópteros plantados como câmaras de vigilância fixas para levar a todas as casas o trânsito before the world wakes up. O barulho monótono e impositivo remonta a ficção, a um ultra controlo de um regime totalitarista que observa os seus cidadãos, futuro e passado; talvez não tão ficção, concluo. Chego ao tartan do McCarren Park já cansado e tento não ouvir as minhas próprias lamúrias. Alguns corredores estão no seu ritmo, percebo-lhes as sombras entre as luzes dos holofotes que iluminam a pista. Não consigo acompanhar nenhum deles. Estou enferrujado, lento. Luto, corro. Devagar. Aos poucos. Quase parado.

Helena Almeida, Ouve-me, 1979.

28.12.11

that kind of

Diana pergunta a Frank se ele a ama. Ele responde-lhe que é uma espécie de amor. Responde-lhe que com uma mulher como ela como pode um homem saber? A resposta é soberba. Frank não mente, é sincero. E consegue igualmente resumir as angústias que um certo tipo de mulher provoca num homem. Diana é filha de um milionário, bela, mimada, caprichosa, insegura e manipuladora. Frank é um homem vivido, ex-piloto de corridas, sem grandes ou nenhumas pretensões para além de criar o seu próprio negócio para o qual poupa trabalhando noite dentro como condutor. Frank e Diana conhecem-se por acidente numa noite em que Frank, de plantão, é chamado na sua ambulância à mansão de Diana. O que acontece a seguir já era um clássico do cinema mesmo antes de Preminger o ter filmado aqui também. Diana fascina-se com a ideia de independência e os ares de masculinidade — e seduz Frank com truques de femme-fatale sofisticada que as mulheres do mundo dele não poderiam nunca igualar. No desenrolar dos eventos Frank apercebe-se do erro e tenta a fuga. Mas o que encontra é antes uma acusação, um julgamento, um casamento forçado. Depois de tudo ultrapassado Frank não desiste de Diana; até ao momento em que tem de o fazer para não desistir dele próprio. Na impossibilidade de ficarem juntos, Diana engana Frank e provoca aquilo que é uma das mais espectaculares quedas do cinema a preto e branco. Morrem os dois. De todo o pó e destroços ficou apenas a memória de Frank. Para que outros homens aprendessem alguma coisa com isso.

27.12.11

year after year

Embora «novo», envelheço. Dou conta dos anos a passar. Não só em mim. Nos outros, o meu espelho, também. Percebo que envelheço mas que sou o mesmo. Por vezes sem o ser mais naquilo em que o era. Ou quase sempre por ser gradualmente um pouco menos daquilo em que o fui. Mas gosto de pensar que, diferente ou não, sou mais do que alguma vez poderia sequer pensar ter vindo a ser. A ilusão, velha companheira de armas, lado a lado com a derrota de uma vida. Torne-me assim noutro homem, dia após dia. Melhor, gostaria. Mais velho, certamente.

22.12.11

blinky palermo



To the People of New York City.

do ensino do Desenho, da Forma e da Cor

A leitura da História da Bauhaus foi útil em diversos aspectos. De todos, o mais importante talvez tenha sido a confirmação de que tudo o que aprendi sobre Desenho, Forma e Cor desde o início do curso de Introdução às Artes Plásticas, Design e Arquitectura (do nono ao décimo segundo ano) até à conclusão da universidade teve uma relação directa com alguns dos métodos pedagógicos criados pela Bauhaus. O pior, foi que nesses dez anos de aprendizagem nunca ninguém me tenha dito isso.

17.12.11

the world before you wake up

O alinhamento dos quatro pivôs no poster sugere profissionalismo a mesma posição frontal que assumem perante a câmara durante a emissão mas as expressões faciais remetem para uma intimidade com o possível espectador que vai para além da seriedade do noticiário e deixa antever «diversão». No anúncio prometem acompanhar os nossos despertares com o trânsito, as notícias, as actualidades, das 4.30 às 7.00am, everyday, utilizando o lema «the world before you wake up». A fotografia dos pivôs é misturada com outros sinais comuns aos passageiros do metro: a silhueta da cidade por trás, o logótipo da cadeia televisiva local, as letras em fontes dinâmicas  dinâmicas como os elementos da equipa que nos traz o mundo antes de acordarmos. A mistura racial dos pivôs aponta para uma diversidade nos conteúdos noticiosos: o mundo de todos e não o de apenas alguns. Um caucasiano, uma latina, uma asiática e um afro-americano  this is America , com nomes próprios e sem apelidos a intimidade —, todos de sorrisos rasgados a antevisão da diversão. Detenho-me particularmente nesta estereotipia do pivô: os mesmo fatos, penteados, maquilhagens, branqueamentos de dentes. A validade da sua heterogeneidade racial só interessa assim num primeiro plano e serve apenas para a coesão de um objectivo final. À parte disso são figuras planas e iguais. Ocas, sem expressão ou tridimensionalidade. 

12.12.11

moholy-nagy


O homem que foi o white-collar de blue-collar.

praise the machine (2)

Figura estratégica da mudança de rumo da Bauhaus foi o multifacetado húngaro Lazslo Moholy-Nagy. Amplamente influenciado pelos construtivistas, Moholy-Nagy defendia no seu tratado 'Constructivism and the Proletariat' (1922) a realidade do século como a technologia: a invenção, construção e manutenção de máquinas  «to be a user of machines is to be of the spirit of this century». Sendo a Fotografia a mais mecanizada e tecnológica das artes à época compreende-se que, para o húngaro, quem nada soubesse de Fotografia não passaria de um iliterado visual. Durante o trabalho vestia-se como um operário de fato-de-macaco e deixou de lado as suas ambições artísticas pessoais pelo interesse colectivo, visto que lhe parecia que «a indulgência pessoal em criar arte em nada contribuiu para a felicidade das massas». O seu romance com a Máquina e o Socialismo prosseguiu e Moholy-Nagy provou ser o homem que Gropius idealizou para a Bauhaus desde o início: a mecanização como o meio de extrapolar a produção do homem a favor do colectivo. O que fez com que o seu antecessor Joannes Itten, intelectual dado a espiritualismos e impulsionador da actividade artística pessoal, se tornasse no vanguardista mais obsoleto do século XX.

11.12.11

praise the machine


«Everyone is equal before the machine. I can use it, so can you. It can crush me; the same can happen to you. There is no tradition in technology, no class-consciousness. Everyone can be the machine's master or its slave.»

Lazslo Moholy-Nagy, 'Constructivism and the Proletariat', 1922.

10.12.11

the battle of love

A vida amorosa de Alma Mahler deu corpo a inúmeros comentários durante mais de meio século. O pintor austríaco Oskar Kokoschka experimentou com ela todos os estádios da «paixão». Começou com amor à primeira vista numa soirée cultural vienense e terminou numa decapitação simbólica a evocar grotescos rituais pagãos. Nesse espaço de tempo, cerca de três anos e nos quais lhe escreveria mais de quatrocentas cartas de amor, Kokoschka desenhou e pintou Alma da mesma maneira obsessiva com que a possuiu. O traço expressionista das suas telas deixa antever a intensidade frenética passada no leito dos amantes. Em 'Noiva do Vento' (1913) o pintor enfatiza a tormenta que é a vida fora do círculo de Alma, simultaneamente musa e único reduto possível de quietude. Sobre ele, Alma disse que o que passaram juntos foi uma batalha de amor, que nunca antes disso tinha provado tanto Inferno como tanto Paraíso. Com o tempo, o lado ciumento de Kokoschka começou a pesar mais do que o seu lado libidinoso e Alma cansou-se. Forçou o afastamento provocando Kokoschka pela sua cobardia, por ainda não se ter voluntariado para a guerra que assolava a Europa. Igualmente aconselhado pelo seu amigo Adolf Loos, Kokoschka partiu e foi gravemente ferido, apenas para descobrir no regresso a relação de Alma com Gropius. No desespero pela perda irreversível, Kokoschka encomendou uma boneca em tamanho real que possuísse as mesmas características físicas de Alma. Quando finalmente chegou mostrou-se deficiente para o seu maior propósito original. Sem utilidade para o consolo de alcova, Kokoschka organizou uma festa que culminou com a decapitação da figura regada com vinho tinto. A catarse do estado de alma (e Alma) e a cauterização de uma cicatriz que ficaria para toda a vida. Comparado com Kokoschka, o lunático da 'Sonata a Kreutzer' do Tolstoy parece um menino.

4.12.11

weimar (3)























Alma Schindler.
Viúva de Mahler, mulher de Gropius, amante de Werfel.
Tudo ao mesmo tempo.

weimar (2)

Um dos pioneiros Mestres da Forma da Bauhaus foi o pintor suíço Johannes Itten, um homem dedicado à teoria da cor e às práticas do esoterismo. Um vanguardista dentro dos vanguardistas. Adepto do movimento religioso Mazdaznan, uma espécie de pré-new-age do virar do século XIX, usava cabeça-rapada e túnicas desenhadas por si. Dentro dos seus métodos de ensino estava a relaxação corporal, exercício no qual os alunos deveriam sentir com os seus corpos gravidades de diferentes formas geométricas. Conseguiu converter alguns estudantes e ainda transformar os hábitos alimentares da cantina para um vegetarianismo temperado fazendo com que a Bauhaus se assemelhasse mais a um retiro espiritual do que outra coisa. Itten foi forçado a partir ao fim do seu segundo ano. A comunhão do corpo com o espírito e a expressão introspectiva individual artística não estava na agenda de Gropius para a Bauhaus. Da mesma maneira que não estava para o porvir do século XX.

weimar (1)

Os primeiros anos da Bauhaus em Weimar foram para Walter Gropius uma série de dores de cabeça. Faltas de meios e de fundos impossibilitavam a perfeita execução dos objectivos do seu manifesto no qual Arquitectos e Artistas deveriam voltar a uma condição de Artesãos, de homens de construção. Para o corpo docente, Gropius juntou mestres de diferentes áreas artesanais como a Carpintaria, a Tapeçaria ou a Olaria a artistas intelectuais, apelidados de Mestres da Forma, para em conjunto ensinarem técnica e estética. Gropius percebeu o essencial que «antes da arte estava a techné»  mas a precaridade económica do projecto provou o contrário. Sem fundos para os apoios técnicos nos workshops, a Teoria venceu a prática. 

3.12.11

repent yourselves, 2010



Em 'Atlas', iniciado em 1964 e em contínuo desenvolvimento, Gerhard Richter começou uma colecção a partir de fotografias retiradas de álbuns de família, de recortes de publicações e de postais. Poderíamos vê-la como uma interpretação da Biblioteca de Babel, de Borges, mas para a Imagem ao invés da grafia: um Arquivo Universal. Nesse arquivo encontramos imagens amadoras e familiares, jornalísticas e profissionais, de paz, de guerra, de autor, retratos, desenhos, textos e anotações manuscritas. Erotismo, pornografia, violência, demência, ingenuidade, apatia, infância, êxtase, quase tudo está representado neste conjunto de cerca de 5000 imagens e ele revela-se em parte como uma testemunha histórica — dos costumes, das ideias e das emoções — dos séculos XIX e XX.

Numa tentativa de marcar uma linha cronológica e descritiva (através de imagens) que também operasse como uma «testemunha histórica», procurei pelos alfarrabistas e lojas de velharias norte-americanos fotografias de álbuns familiares que correspondessem a um período muito específico dos EUA: da entronização do American Dream à queda deste; ou seja, inícios de 1950 a finais de 1970. A selecção de imagens unicamente de carácter amador deriva da particularidade de encontrar nelas uma estética muito reveladora do período. Estas fotografias, conhecidas como kodak snapshots, resultam descomprometidas e casuais e surgem assim como as melhores testemunhas de uma identidade suburbana e colectiva. Nascem, paralelamente, de uma desculpabilização do sujeito perante o objecto.

Ao catalogar uma época através de imagens amadoras, quis igualmente acrescentar-lhes elementos que, por um lado, enfatizassem as raízes de uma identidade colectiva e que, por outro, questionassem a evolução dessa mesma «identidade». A incorporação de passagens bíblicas que focam o arrependimento e a entrega, (retiradas da versão Protestante da Bíblia), aos elementos fotográficos vem precisamente nesse sentido. É uma referência ao legado Puritano norte-americano que se regula por um ascetismo visual e emocional dentro da sua lógica de contenção física e espiritual: todos somos pecadores devido ao Pecado Original, nada mais nos resta do que o arrependimento.

«Repent Yourselves» explora assim o confronto dessa liberdade e individualidade do Sonho Americano —a celebração, o ócio, o lazer, o hiper-consumo, a padronização do life-style— com os dogmas de conduta puritanos da expiação da culpa pelo arrependimento enraizados no subconsciente colectivo de uma sociedade e cultura. Se as fotografias familiares e desinibidas sugerem a desculpabilização, as referências biblícas reforçam o seu oposto.


Imagens: 
'Repent Yourselves', 2010, Pedro Duarte Bento
12 original Kodak snapshots with biblical inscriptions wooden framed, ed. 1/1

24.11.11

wall street (3)

Nos dois meses nos quais ocuparam gradualmente a praça privada de uso público o movimento da putativa Ocupação de Wall Street não passou da ocupação de Zuccotti Park, o núcleo de indignados inicial, maioritariamente anarquista, foi tendo como parceiros outros indignados vindos de múltiplas facções da sociedade: desempregados, estudantes, activistas, sindicalistas e veteranos. A todos estes juntaram-se depois os bêbados profissionais, os indigentes, os sem-abrigo, os fanáticos religiosos, muitos jornalistas e, por último e em grande, os turistas. Certamente os mais indignados de todos.




8.11.11

until the end of the world



Entre a promessa da velocidade dos deuses com o triunfo da máquina no Futurismo e a desilusão, pessimismo e negação no Pós-modernismo está quase um século de avanços mutilados pelo trauma de duas guerras globais e nas quais essa mesma máquina aniquilou para lá do imaginável. E assim estranhamente se compreende que entre o Futurismo e o Pós-modernismo o melhor de tudo só poderia mesmo ser o futurismo pelo pós-modernismo.

Until the End of the World, Wim Wenders, 1991.
Para ti. For you. Pour toi.

15.10.11

drawing



Voltemos a Palladio e deixemos por momentos os corredores, essa grotesca e engenhosa invenção da pequena burguesia e sub-produto da Revolução Industrial.

12.10.11

wall street (2)

Sozinho, sentado na praça fria e cinzenta, com a salada na mão, sou à hora de almoço um ser tão exótico para um japonês de máquina fotográfica em punho como um nativo do Mato Gross o era para o Lévy-Strauss. Represento uma coisa que talvez nem seja, mas aparentemente represento-a bem.

wall street (1)

Por estes dias as ruas estão parcialmente vedadas por grades da polícia que impedem aos manifestantes a aproximação à NY Stock Exchange e ao Federal Memorial. Há mais de três semanas que o barulho continua no local onde decidiram fazer o seu acampamento, o seu campo de acção e de guerrilha. As palavras de ordem proferidas pelo megafone, o batuque dos tambores, os gritos compassados tornaram-se na melodia que durante três quarteirões embarca as minhas manhãs a caminho do estúdio. O grupo tem crescido lentamente. Noto-os agora mais organizados, mais decididos; mas igualmente sujos, igualmente tribais e desajustados — numa imagem social que os coloca mais perto de ocupantes anarquistas do que a classe-média que tentam proteger. Um homem mais velho wiches wishes me a good day, sir todos os dias quando passo em frente à turba. Respondo-lhe apenas com um aceno de cabeça, mais educado do que simpático pois reconheço-lhe a ironia, o olhar provocador. De fato e trench-coat encarno o que ele repudia e o seu cartaz promete acabar. Julgamo-nos os dois pelas aparências. Estaremos porventura os dois enganados.

29.9.11

cathedra


Sobre Barnett Newman também nunca discutimos.

voyage au tour de ma chambre, au tour de ma vie

Tomo notas atrás de notas. Encho os cadernos com apontamentos, rascunhos. As ideias materializam-se num plano abstracto. Pela grafia, à imagem de Borges, e não na sua forma mais pura: o ponto e a linha. Mas são precisamente pontos e linhas a partida dessas mesmas ideias; ideias que são afinal traduzidas em palavras. Ideias explicadas, dissecadas, identificadas. Viajo muito, agora, entre aqui e ali, e também pelas ideias. Ideias de projectos, projectos para ideias. Os esquissos acumulam-se em pequenos papeis amarelos. Esquissos de ideias, ideias de formas, ideias de escritos; escritos de ideias, ideias de projectos. Entre projectos e ideias, a minha vida. Aos poucos, depressa, devagar.

10.9.11

ornament is crime; propaganda is not


Ornamento e Crime. Ornamento é crime. Propaganda não.
O primitivo vício moderno e pós-Boulléano pela estética romana combinado com a corrente loosiana levou Speer a um nível diferente de interpretação das geometrias clássicas. Mas a grandiosidade ideológica foi enfatizada pela escala e a sua respectiva falta de referência e não por um exagero visual de múltiplos componentes. Um símbolo, um eixo, uma mensagem. Ornamento é crime. Propaganda não.

9.9.11

Love affair.
Love unfair

28.8.11

after the hurricane

twenty four hours tracking irene

Sábado, 9.22: O furacão é amplamente comentado; estranhos trocam graçolas, confidências e receios. Os loucos anunciam o fim; numa longa linhagem histórica onde todos os outros loucos o têm anunciado antes deles. 

Sábado 12.34: Aquilo a que assisto na cidade é algo novo. As prateleiras nos supermercados esvaziam à mesma velocidade que o furacão se aproxima. Água, pão, velas, lanternas, pilhas são os primeiros itens a esgotar por todo o lado. Cria-se o ultra-abrigo — no círculo privado do nosso próprio medo. 

Sábado 13.43: Seguimos o protocolo; e estando na zona de evacuação B preparamos os detalhes para o caso do aviso chegar. Virilio prevê o cenário no seu 'Futurism of the Instant': todos seremos refugiados no Futuro. Sempre me pareceu que já o seria no Presente.

Sábado 15.39: Percorro de bicicleta as duas últimas horas antes do momento crítico para recolher. A liberdade antes da catástrofe.

Sábado 17.25: Coloco tardiamente umas placas de madeira a proteger o vidro das minhas janelas. A chuva é agora intensa e o vento forte. O meu castigo pela Preguiça.

Sábado 19.33: As notícias relatam os estragos iniciais ao longo da Carolina do Norte, a sul. O impacto com a cidade prevê-se para as próximas horas. Espero noite dentro. Espero. Como naquela angústia sem fim no 'Deserto dos Tártaros' de Buzzati.

Domingo 2.12: Há vento e muita chuva. Nada mais do que isso. Nem ninguém.

Domingo 9.22: Acordo e pelos estores reconheço a normalidade lá fora. Vou sair. Por aqui o furacão chegou ao fim.



26.8.11

why do they name all hurricanes after women?

O tremor de terra na terça-feira. O furacão no Domingo.
Como eu previra, depois da tua chegada acabar-se-ia o meu sossego.

14.8.11

Chove como não há memória. Doze horas a fio sem parar. O barulho dos trovões é apenas interrompido pelas ocasionais sirenes. A cidade que nunca dorme silenciou-se, por fim. Da minha janela não vejo passar quem quer que seja e eu próprio tão-pouco me aventuro pela rua alagada. Observo-a apenas, cá de dentro, sozinho, sem calmas ou pressas; sem motivos ou objectivos.

before sunday brunch

Sou agora um homem preso a uma responsabilidade de uma única circunstância profissional que determina múltiplas circunstâncias da vida. Uma máquina, um autómato, um mecanismo perfeito que não falha perante o desafio. Mas cujas emoções pessoais se esbateram, cujas atitudes sentimentais foram obliteradas pela realização de um propósito. Desapareci da minha vida tal; como por último a minha vida desapareceu de mim.

2.8.11

the summer lesson

26.7.11

your car is ready

Deixo donwtown por três dias para uma viagem de trabalho à Cidade do México. Não voltava aqui desde 2005, ano em que atravessei o país durante um mês de mochila às costas. Agora as coisas são diferentes. Venho como «representante», de barba feita, fato-escuro, sapatos ingleses impecavelmente engraxados. «Gringo», chamaram-me eles à chegada. Mas rapidamente viram que estavam bem enganados.

22.7.11

the endless summer (2)

A temperatura que hoje se faz sentir combinada com os altos níveis de humidade e poluição torna este dia no mais sufocante do ano. Há no ar um filtro que transforma os contornos das silhuetas em manchas indefinidas, esbatidas. Pelos passeios, ao contrário do habitual turbilhão, as pessoas movem-se devagar. Os passos são lentos e ofegantes, em câmara-lenta. Como animais ao longe na savana. A logística da cidade também sofre as consequências do calor aterrador: linhas de metro paradas, aparelhos de ar condicionado avariados, máquinas de gelo estoiradas. Tudo derrete e é na subjugação do apparatus tecnológico humano que a cidade revela exactamente o que ela é. Um Inferno.

Refugio-me num cinema de esquina.
Porventura o Purgatório.

the endless summer

Pedalo noite dentro contra / o calor. / Pedalo noite dentro contra / a ausência / e a distância. / Contra o afastamento; / contra o pensamento. / Contra a memória. / Pedalo, / pedalo / por mim e por ti. 

uma bicicleta é como um cão

Faz companhia.

Tornei-me aos poucos num improvável coleccionador de bicicletas. A primeira porque é para ti, depois a segunda porque é para mim e agora a terceira apenas porque sim. Gosto de pasteleiras —ou cruisers, como lhes chamam por aqui— parecidas com as do Jacques Tati. 

10.7.11

le bonheur imprévu (3)

Comprei uma bicicleta. É clássica, confortável, estilo cruiser, dos anos 1970, preta e cromada, com selim de cabedal castanho, cesto, campainha. Percorri ontem com ela as ruas da cidade. Devagar, com calma, de passeio. Da actual casa em Bedford à anterior de Tompkins Square Park são cerca de trinta minutos, pela Williamsburg Bridge, no meio de toda uma multidão de outros ciclistas e peões domingueiros. Depois daí à West Village não chega a dez minutos mais. A ilha é pequena, transversalmente, e a minha parte da ilha ainda o é mais. Comprei uma bicicleta. É clássica e modelo de senhora. Para ti. Está à tua espera para quando chegares.

le bonheur imprévu (2)

A felicidade plena no universo das preocupações interiores rohmeriano nem sempre acontece. E quando acontece fá-lo de uma forma imprevisível e fugaz, subtil e simbólica — no joelho de Claire, no olhar de Pauline ou no efeito solar de um raio verde testemunhado por Delphine. Gostar de Rohmer para além da sua maturidade estética implica uma outra maturidade. Uma conseguida pelo peso amargo da derrota pessoal, da descoberta da impossibilidade, do fim da inocência. A frágil satisfação, o breve contentamento, o êxtase desmedido na sua proporção provam que Rohmer é território dos vencidos. Talvez por isso um dos meus favoritos.

6.7.11

le bonheur imprévu



23.6.11

outras coisas

Retomo o hábito matinal do jogging no McCarren Park e pelo caminho atravesso o despertar da vizinhança que um dia foi um dos redutos hopperianos da cidade. Por Berry Street reparo que os outrora armazéns e pequenas casas familiares dão agora lugar a novos condos e lotfs desvirtuados do seu conceito original. As fachadas de madeira e tijolo são substituídas por outras de alucobond e alumínio, os pequenos comércios e cafés dos rés-do-chão por ginásios de condomínio com fachadas de vidro; casas de três pisos por edifícios de seis, de nove, de doze. Tal situação, para além de revelar o habitual e inevitável progresso, demonstra duas outras particularidades: a idealização de um novo território pela agressividade e pressão do Real-Estate —destinado a yuppies e novos-ricos— e um narcisismo autoral que nele encaixa sem qualquer ideologia e/ou identidade estéticas. Por aqui nunca se ouviu falar em regionalismo crítico. Como tão-pouco se ouviu falar de tantas outras coisas.

10.6.11

landing

Antes de aterrar o comandante anunciava os noventa e oito graus Fahrenheit. Em terra sentia-se cada um deles multiplicado por um índice de humidade na casa dos noventa por cento. Depois de atravessar o Hudson e chegar à cidade o céu finalmente abriu deixando cair uma trovoada de Verão que transformaria a ilha numa poça imprópria para a altura do ano. Costuma-se dizer que boda molhada é abençoada. Espero que das «chegadas» se diga o mesmo.

8.6.11


Não penses que ficas no cais. / Na verdade / sei / vens já comigo, / lado a lado / sem oceanos de permeio / nem noites de lágrimas / de medos idos.

sena e borges

Numa mala onde o excesso de peso já há muito passou o excesso de peso, há apenas lugar para o melhor. Um pouco de casa com um, um pouco de fantasia com outro. Algo que é preciso, in the wild land of hyper-reality.

6.6.11

da abstenção

Abstiveste-te de tudo.
No Domingo de quem governaria, na segunda-feira de nós.

41,1%

Quarenta e um vírgula um por cento de taxa de abstenção significa acima de tudo que quarenta e um vírgula um por cento da população eleitoral portuguesa não se importaria de viver em regime autocrático e/ou totalitário. A quarenta e um vírgula um por cento, a democracia só dá trabalho.

5.6.11

a matilha

Consigo, mesmo nas vésperas do meu regresso definitivo aos EUA, vir votar e cumprir assim o meu «direito e dever de cidadão português num estado democrático». Voto na freguesia do Coração de Jesus, em Lisboa, e por coincidência o ainda primeiro-ministro em gestão —que também é eleitor nesta freguesia—veio votar ao mesmo tempo que eu. Escusado será dizer que o circo mediático à volta do stand está montado: dezenas de jornalistas, cameramen, fotojornalistas e alguns curiosos esperam em matilha a chegada do político e o momento do seu voto. Esgueiro-me entre eles, entro e uma vez no interior coloco-me discretamente à margem do caos e longe do alcance das câmaras, preferindo votar apenas depois do espectáculo passar. E é nesta espera que tenho a oportunidade de ver a matilha em acção. Os jornalistas comportam-se de uma maneira deplorável, atropelando tudo e todos à sua frente (colegas mas sobretudo eleitores) para o melhor ângulo, a melhor imagem, o melhor comentário. Eu acredito que cada um deva fazer o seu trabalho o mais profissionalmente possível, mas ver o comportamento de merda destes adultos é francamente lamentável. À saída, vendo o batalhão de câmaras apontadas à porta, digo-lhes na cara o que acho: uns animais, umas bestas-quadradas. Uma pivot presente concorda comigo, os restantes nem por isso.

27.5.11

our first breuer chairs together



«Marcel Breuer's revolutionary 1928 Cesca chair marries
user-friendly caning and wood with the industrial-age
aesthetic of cantilevered tubular steel».

Compramos em Lisboa as nossas primeiras Cescas side-chairs do Breuer em conjunto (tu já tinhas uma) nos dias que antecedem o meu regresso definitivo a Nova Iorque. Elas não são assim apenas «o nosso primeiro legado comum». São também uma subtil prova de continuidade e desejo: desejo de continuidade e continuidade de desejo. Eu vou e logo a seguir irás tu e talvez um dia qualquer as cadeiras por lá se juntem a nós. Mas isso não é verdadeiramente importante. Mais do que as Cescas são, é o que elas representam. Um futuro. Eu e tu, in our gang of two.

before the sun rises

No jogging, e em muitos outros desportos, o corpo é submetido a uma prova de resistência tal como a mente o é a uma prova de exigência: mais rápido, mais força, mais um sprint, mais uma volta; mais, mais, mais. Este conjunto de ordens mentais, depois de concluídas, produzem uma satisfação atlética que faz com que o dia, de alguma forma, comece mais completo pois a prática do desporto é fundamental para atingir um estado de espírito elevado. Mas tal também provoca um desgaste físico no nosso lado primitivo: corre-se para a exaustão do animal que há em nós. E com ele de rastos, podemos ser um aparentemente tranquilo peão na cidade ordenada, contemporânea, hipócrita e mesquinha.

18.5.11



«We will always be able to make films. When I saw 'Voyage in Italy', I knew you could shoot a two-hour film with a couple in an automobile. I've never done that, but I've always kept it as a security».

Jean-Luc Godard, The Future(s) of Film
Three Interviews 2000/1, página 42
Tradução de John O'Toole

17.5.11

como disse Godard,



«vivre sa vie».

madrugada

Lá estava, como sempre que foi preciso, o nascer do sol ao longo do rio para acompanhar a minha purga. O ritmo das passadas era marcado pelos trocos soltos no bolso esquerdo do impermeável / cling, clang / que me despertavam de alguma forma do torpor mental / cling, clang / em que me deixara cair durante a corrida frenética / cling, clang / imaginando o teu corpo abandonado e desprotegido / cling, clang / esquecido em cima da cama. Procurei-te depois e não estavas. Ou estavas e não quiseste abrir.

dia doze de maio

O dia é o da véspera do culto. A estrada está enfeitada por peregrinos com coletes reflectores que caminham em fila-indiana pelas parcas bermas em direcção ao Santuário. Cruzamo-nos de quando em quando. Abrandam o passo pela curiosidade que a minha tarefa lhes desperta. Talvez estranhem o meu propósito, vendo-me assim —com todo o calor que se faz sentir— camuflado pela capa preta debaixo da câmara de grande-formato. Depois continuam. Eles e eu; cada um à sua promessa, cada um ao seu castigo. Cada um à sua fé.

14.5.11

in the middle (of some) east



Two guys in a van nearby a construction site, Kuwait, 2011
C-Print, 120x95cm, da série 'Middle (of some) East'
Copyright PDB

10.5.11

golpe baixo, treino



Republican militia woman training on the beach outside Barcelona, August 1936
Gerda Taro, Gelatin silver print, International Center of Photography NYC

8.5.11

virtudes

Quando se entra em Virtudes notam-se os homens que andam sem olhar em frente e as mulheres que passam ocultas entre a própria sombra. Não se vêem. Uns e outros, uns aos outros. O desejo de romance existe mas lento e tímido, debaixo das pedras da calçada, colapsado pelo legado da vergonha católica. Virtude, gritou o homem que a fundou. E assim o respeitaram os seus seguidores.

baixos

Ao terminar a conversa a vela está quase no fim. Alguma cera derramou para fora da palmatória criando geografias grotescas no tampo de madeira sebento. A chuva ainda se faz ouvir ao cair no telheiro de zinco num ritmo melódico de noite de Verão. A mulher leva os copos sujos para dentro deixando-nos de mesa vazia e olhos nos olhos. O velho acompanha-me à porta sem sorrisos e despede-se com um aceno seco. Cá fora, outra vez por minha conta, culpado por mexer nos horrores dos outros, arranco de carro com cuidado pelo estreito carreiro. A morte de quem gostamos nunca é fácil, dissera-me ele no dia anterior pelo portão de ferro à chegada do desconhecido.

covões

Dias sombrios, contava o dono da pensão ao final da aldeira, foi o que passaram os que por lá nasceram e morreram. Hoje já não há ninguém: para nascer ou morrer, acrescentou. Desapareceram todos; da sua vista e ainda mais da sua memória. Está sozinho, rodeado por quartos forrados a rendas bafientas, abandonados ao vento que entra pelas vidraças partidas. Um cão acompanha-o, tão velho como ele e igualmente só.

4.5.11

47 ronin (2)



Badlands, (1973)
de Terrence Malick

Já Adorno, antes dos demais, previra o inevitável:
um dia o automóvel tornar-nos-ia em vagabundos sem-abrigo.

47 ronin

A estrada nacional e tudo o que ela representa, tal como tudo o que a define, são há muito um subject da minha pesquisa interdisciplinar. Viajar pelo centro do país —pela estrada nacional— permite-me sempre uma nova perspectiva sobre algumas das coisas que me interessam explorar. «Aponto» agora o que não fotografo, deixando a escrita completar o quadrinómio daquilo que porventura eu possa querer. O samurai errante em mim reclama assim a sua liberdade. Também ele há-de querer algo que eu possa compreender.

1.5.11

o grito antes do silêncio e o silêncio antes do grito

'Ordet', de Carl Th. Dreyer 'Il Grido', de Antonioni

30.4.11

a história de sólon

Continentes devastados, corpos destroçados. No final o que sobrou foi apenas uma parte de ambos. Aos dois faltou depois algo irrecuperável, aos dois chegou depois a sombra da perda. Com o conflito terminado, ficaram sem propósito. Dois veteranos que sabiam que dali em diante viveriam unicamente das suas próprias memórias. Sem vencedores ou vencidos. Em paz.

29.4.11

e com isso

tiras-me o prazer das coisas / e com isso /
tiras-me o prazer de ti.

28.4.11

family matters

Bingo, 1974. Four black and white photographs, 29 x 32 x 1 in., each

Bingo, 1974
Four black and white photographs, 29 x 32 x 1 in., each

'Bingo', de Gordon Matta-Clark, ou mesmo outros dos seus famosos building-cuts, sugere-me sobretudo uma renegação da nostalgia de infância na forma de desconstrução de um dos seus ícones nucleares. A «casa» enquanto elemento agregador da família, a sua mutilação enquanto a desagregação de tudo o que ela representa(ou). Depois olhamos para a vida de Matta-Clark e a ideia ganha uma força acrescida. Roberto Matta Echaurren, o pai, chileno, artista reconhecido, amigo de Duchamp, abandonou Gordon e o seu irmão gémeo Sebastián quando estes tinham apenas quatro meses. Sebastián aparentemente suicidou-se em 1976, caindo de uma janela; Matta-Clark morreu dois anos depois, aos trinta e cinco. O pai não foi a nenhum dos funerais.

19.4.11

aos anos

A nostalgia é um sentimento perigoso; uma fragilidade camuflada da condição humana.
Penso, logo existo. Lembro-me, logo me fodo.

o futurismo do instante

Em 'The Futurism of the Instant, Stop-Eject', (2009), tradução inglesa do seu penúltimo ensaio, Paul Virilio expõe através de ramificações e conclusões que os seus (hiper) conceitos produzem a ideia de «Revolução Portátil», uma consequência da globalização e de um mundo e de quem o habita em movimento que nos coloca num afastamento absoluto das nossas origens e identidade: êxodo, exílio, deportação, emigração. Contudo em Virilio não me interessa tanto a leitura política como me interessa a antropológica. E mesmo assim prefiro ainda lê-lo numa perspectiva menos científica e mais emocional: a exposição dos nossos preconceitos, receios, pudores. A revolução portátil não é assim iminente, como ele acusa. Está presente. Todos somos culpados e vítimas, establishment e revolucionários, já a caminho do derradeiro exílio, aquele onde deixamos de ser tudo e passamos a ser outra coisa qualquer.

18.4.11

os dez dias que abalaram o mundo

Uma ausência justificada por outra ausência. Ou como o mundo anda todo numa reacção em cadeia.

8.4.11

insomnia, 1934



Não muito diferente daquela 'Insónia' (1994) de Jeff Wall.
Tão-pouco menos apropriado.

duas notas

Tomo nota de duas coisas importantes no caderno aos quadrados. Sublinho com o lápis amarelo chinês, como que enfatizando a sua urgência. E depois distraio-me e continuo, absorto entre letras e opacidades, compondo e desconstruindo. Esqueço-me, no final. De tudo. Não tinha assim tanta importância. Não tenho assim tanta importância.

shooting ducks

Pensemos em nós, dir-te-ia em primeiro lugar. Sem medos ou pudores e não mais do que outros que com a sua legitimidade também já pensaram neles. Uns aventureiros de Godard, num carro qualquer estrada fora, com uma arma roubada a um homem da lei. Sendo talvez /tu/ a mulher perdida e /eu/ o atirador furtivo que a molda e espera. Uma estrada só nossa, alimentada pela quimera que vemos através um do outro. Shooting ducks, shooting cows, shooting sheeps. Shooting each other, loving each other. No fim, no tal acidente grotesco e rocambolesco escrito nas linhas de um condenado, a Morte. Mas uma morte como um prolongamento de uma vida. Nem a minha nem a tua, morte ou vida. Outra, apenas, a que sempre quisemos e sonhámos e por nada alcançámos. Ainda, dizia o telegrama. Não tinha a manhã sequer chegado.

7.4.11

american something

Como naquele livro do judeu mais famoso de Newark, uma vida dividida em três capítulos:
Paradise Remembered, The Fall, Paradise Lost.
Assim mesmo; pela mesma ordem.

5.4.11

two weeks back in lisbon

Ou como a promessa causada pela distorção do afastamento se tornou num pântano provocado pela realidade da proximidade.

31.3.11



Richard Serra, Drawings
Work Comes Out of Work, 1976/77

diário de uma falta, downtown

Sento-me no banco voltado para os cubos pintados do Sol LeWitt de que tu tanto gostas. Relembro os teus comentários sobre as múltiplas combinações de cor por ele utilizadas e de que alguma forma preferes o seu trabalho monocromático. Sozinho, em frente da fachada de vidro que os protege, em frente do meu próprio reflexo solitário que se sobrepõe a tudo acentuando a tua falta, concordo uma vez mais contigo. Por Arte nunca discutimos, reparo; ou como colocou Adorno, love is the power to see similarity in the dissimilar.

4pm

Um homem de meia-idade, de mão dada a uma mulher, grita com entusiasmo 'We love each other'. O anúncio ecoa pelo jardim e interrompe o sossego primaveril. Algumas pessoas olham e, dessas, são poucas as que sorriem. A mulher, de olhos no chão, reprova a exaltação com um aceno de cabeça. Ela sabe que o que ele fez não foi afirmar publicamente o seu amor por ela mas sim informar publicamente o amor de um pelo outro. A diferença incomoda-a. Preferiria certamente o contrário.

28.3.11

back

image copyright: Bruce Davidson

To hipsterville.

o delíquio da ausência

Regressado do Kuwait, a passagem por Lisboa e por ti foi breve, amarga e licorosa. Agora, outra vez de volta a esta cidade da qual de alguma forma nunca saio, vejo-te a meu lado em tudo o que faço e que fazíamos, em todas as ruas que percorro e que percorríamos. Revejo-te à minha espera na esquina depois das aulas com o teu sorriso inocente e feliz. Quero-te outra vez aqui, mesmo sabendo que contigo e que com o teu amor / um dia fomos maiores do que a vida, pendurámo-nos em nós próprios e corremos um mundo interior e desconhecido / paixão / fomos, dissemo-lo, os «possíveis aventureiros» e como Dédalo e Ícaro fugimos do labirinto impossível / ternura / os teus braços de calor, o meu corpo sólido de rochedo / chegará também uma quota-parte de fúria / fuga / queda / e na qual as tuas asas de cera derreterão pela surdez causada pela barreira da nossa incomunicabilidade. O que quer que seja, vem, e reza comigo ao meu deus pagão.

13.3.11

the kwt diaries (bye bye modernism)

O fenómeno que a descoberta do petróleo provocou no país (1938) deu origem a uma escalada inimaginável de desenvolvimento urbano, tecnológico e económico. Nesse primeiro momento, britânicos e outros trouxeram para o Kuwait os seus know-how e how-to. O Movimento Moderno —ícone arquitectónico avant-garde da época— veio na esteira desse dito conhecimento e o território tornou-se durante os anos 1950 a 1970 num extenso laboratório alimentado por motivo, recursos e ambições. A antiga cidade islâmica de terracota evaporou-se debaixo das estacas de betão / dos registos experimentais / dos não-assumidos «colonizadores». Não obstante, o exercício de um estilo internacional —efeito inadiável do progresso que o petróleo impulsionou— produziu resultados locais interessantes. Depois, no final dos anos 1970, surge um segundo momento: a criação de uma nova identidade global iconográfica e megalómana. Contudo, a produção do Movimento Moderno, também pelo seu cunho «colonialista», seria gradualmente posta de parte, secundarizada e apropriada pela horda de emigrantes do subcontinente indiano, no centro, ou abandonada à total degradação nas zonas residenciais. Da mesma forma que a sua escala não poderia nunca rivalizar com a da Tecnologia. E seria a tecnologia e nada mais do que ela que faria esquecer o passado e projectar o futuro. O pós-modernismo, em todas as suas vertentes excepto no pessimismo, chegou quase em tempo real ao Kuwait. O pessimismo viria alguns anos depois. Depois das torturas da ocupação iraquiana e do exílio da classe dominante até então intocável.

12.3.11

the kwt diaries (8pm)

9.3.11

the kwt diaries (clusters)

São agora «famílias» o que outrora foram «tribos». O progresso que o petróleo impôs trouxe a procura vertiginosa do status quo da contemporaneidade ocidental. Em trinta anos, esta terra de primitivismo resistente tornou-se numa metrópole complexa e descaracterizada. Os eixos radiais que a fixam sobrepuseram-se à geografia e desenharam um território de enclaves rodeados por feixes de velocidade constante. Nómadas tornaram-se suburbanos, indivíduos periféricos, soltos e desenquadrados. Da mesma forma que os habitantes das cidades de lama e da proximidade cederam ao isolamento e protagonismo social. (Anoto a um canto: Enclaves como agrupamentos. / Agrupamentos como tribos).

Na travessia do país pelo deserto a paisagem denuncia a herança tribal original e a sua carga cultural intrínseca. Agrupamentos surgem na vastidão do horizonte anunciados pelas suas estruturas efémeras: micro-comunidades em tendas de lona; refúgios de fim-de-semana de inúmeras famílias para os meses de Inverno. A necessidade inconsciente do regresso ao nomadismo, o lado oculto de uma evolução económica e tecnológica ultra-sónica.

8.3.11

the kwt diaries (tuesday)

Vagueio por uma terra de dispersão. / Vagueio por uma terra de dispersão cuja identidade se define por um confronto mal calculado entre uma ostentação urgente de progresso e um não tão remoto legado tribal. Ao fundo desta terra de ninguém o «centro cosmopolita» não é o esperado começo mas revela-se o fim. O local onde tudo o que se conhecia acabou e ferozmente se reinventou numa cópia de outros. Adobe e taipa ao pó voltaram com a mesma rapidez com que o petróleo saiu do subsolo. A originalidade perdeu-se ao ritmo de esta progressão geométrica. A repetição e o sucedâneo formam uma nova autenticidade, de alguma forma já só sua e ela também imitada por outros no rescaldo dos seus próprios sucessos.

6.3.11

the kwt diaries (flatness)

Estou no ponto zero. No ponto central onde se cruzam dois planos perpendiculares infinitos. Um horizontal que se desenvolve radialmente perdendo volume até ao nivelamento total que é o deserto. E um outro, o vertical, sem espessura, hiperbólico, que será infinito até à vontade de Deus ou dos homens e da sua memória de Babel.

5.3.11

the kwt diaries (dawn)

O centro surge no horizonte nocturno como um cenário bidimensional e isolado, flutuante. Os edifícios das sedes financeiras e governamentais, a par das torres icónicas, disputam entre si a coroa de louros da contemporaneidade, assemelhando-se a colagens de formas improváveis num universo sem perspectiva ou profundidade. As variadas luzes que os enfeitam —marco da triunfante celebração nacional que passou— despoletam a alegoria do absurdo e da estranheza, enfatizando uma irrealidade infantil, como que sonhada e não possível, ingénua. A representação plana aproxima-se de nós e não nós dela, até ao ponto em que somos engolidos pelo seu aparente núcleo. Mas o espaço por si criado revela-se igualmente raso, abstracto, vazio. De gente, de vida e de motivo. Aqui, apenas os objectos inanimados parecem fazer sentido em relação uns aos outros; uns com os outros. Articulações estéreis e fabulosas. Depois sai-se como se entra, sem dar verdadeiramente conta disso.

the kwt diaries (friday)

Sobre «viajar» tanto se tem dito que tudo o que se acrescente agora soará sempre a chavão. Algo porém ficou esquecido e por fazer: viajar sem mencionar a viagem, como quem ama sem mencionar o amor —sobrando apenas o princípio, o fim, o fim do princípio e por último o princípio do fim.

2.3.11

heading to kuwait

É talvez a véspera da partida o denominador comum a todas as minhas viagens. Alinho em cima da cama meia dúzia de peças de roupa, os produtos de banho, calçado variado, o laptop. Depois o ritual do equipamento fotográfico: rolos 6x6, filme 4x5', backs e holders, disparadores, lupa de focagem, tripé, a Hasselblad, agora a field-camera de grande formato também, fotómetro. No final do alinhamento encaixo, primeiro mentalmente, cada grupo e subgrupo no tosco paralelepípedo que é a mala. Como um puzzle tridimensional. Ficam apenas de fora um par de livros de bolso, o passaporte e algum dinheiro.

A aventura, mais uma vez, começa.
Vou ter saudades tuas, sei-o e digo-te já de antemão.

21.2.11

Rita Coolidge e Kris Kristofferson, algures nos 1970's

Já dizia Rimbaud, «O amor deve reinventar-se, nós sabemos».
(Ou qualquer coisa parecida com isto).

silogismo para jorge de sena

Eu sou todos. Todos são nenhum.
Eu sou nenhum.

19.2.11

sena, o deleuziano

«Éramos nós, por sermos sempre outros, outros que não seriam imagens mal interpretadas de nós mesmos, mas outros, os outros que virtualmente eram as janelas que as outras pessoas têm para reconhecer-se, por identificação virtual, umas às outras e a nós. Somos nós, na medida em somos os outros delas. E é isso que nos impede de, sendo nós em nós mesmos, não sermos inteiramente livres. O corpo absoluto não está, todavia, isento de ser destruído. A virtualidade absoluta, com a qual podemos sobreviver nos outros, também não.»
in 'Sinais de Fogo', pag. 373.

Ao longo do romance de Jorge de Sena há uma constante obsessão do narrador sobre o efeito que exercemos uns nos outros —no destino, no carácter ou em ambos—, o reflexo dos outros em nós e, ainda, de que «nós» também somos os «outros». Combinações de tudo o que somos e poderíamos ser num jogo virtual de espelhos, influências e distorções. 'Sinais de Fogo', ou o tal mundo de possibilidades deleuziano.

2.2.11

justino, o queirosiano

O senhor tenente Justino é talvez a personagem mais queirosiana do século XX: do fundo da sua alma republicana à ponta dos boémios e refinados bigodes; enfiados por vezes nos decotes das criadas, por vezes nas mesas de jogo. Encontramo-lo em 'Sinais de Fogo' de Jorge de Sena, quase sempre de cigarrilha e boquilha, ar entendido dos assuntos deste mundo e de outros. Militar de curta carreira e de longo vício, homem de alguma coragem, muita goela e pouca fé. Conhecedor dos prazeres da carne e das fraquezas do Estado. Lunático e lúcido, como convém, e dotado de um pragmatismo de algibeira que a vida lhe deu ao ver-se fugir para a morte. Da crença não faz gala nem repúdio, apenas mostra sensatez. Como ele mesmo diz: vão com Deus e com o diabo, que nunca se sabe quem está por cima. E, segundo o que conta, o tenente Justino só uma vez ficou por baixo.

31.1.11

regardez vous dans votre miroir



Como Deleuze, quero «um pouco de possível, senão sufoco».

aos meus pares

'Sinais de Fogo', de Jorge de Sena, é —inacabado ou não— um romance completo. Ao início, porém, a sua escrita parece-me artesanal e extemporânea, sem uma clara referência a qualquer estilo ou época, sua ou de outros. Uma escrita-oral, apetece dizer, ou um diálogo informal estabelecido entre narrador e leitor. Depois, a narrativa carregada de reflexões intimistas sobrepõe-se pela sua força visceral e fria, expondo lado a lado a arguta capacidade do autor na leitura da condição humana com a sua visão maioritariamente descrente da mesma. Sena divaga por considerações platónicas e filosóficas carregadas de inquietude e atribulação sentimental. Notável, também, é a galeria de personagens senianas, formadas de um entendimento nítido das forças e vontades individuais e colectivas, de todos e de um. Na paisagem histórica do romance toca-me particularmente a correlação com a minha própria infância. O cenário de uma Figueira da Foz burguesa no Estado Novo tem mecanismos sociais semelhantes aos do Alentejo provinciano da década de 1980: a família, as classes, perda da inocência, as criadas e as putas e as cenas de pancadaria. 'Sinais de Fogo’ não deve por isso ser lido unicamente como uma «autobiografia de Sena», que aparentemente nem o é. É um romance global e único que de carácter autobiográfico talvez tenha tanto de Sena como de muitos nós. Dos meus pares, seguramente terá.

na mesma

«E podia depois, mesmo que tu me deslumbrasses como deslumbraste, continuar a não te amar, e continuar na mesma a entregar-me a ti. Entende isto de uma vez. Podia mesmo julgar que te amava antes, descobrir depois que não te amava, e continuar a entregar-me a ti pelo prazer que me desses, e que me desses não só por seres homem, mas até por, além disso, seres tu. Entende isso».

Pedia, em 'Sinais de Fogo', Mercedes a Jorge, que entendeu.
Eu também entendi.

30.1.11

brecht no ccb, tour-de-force e uma questão de gosto

Não foram precisos mais de cinco minutos para perceber que a versão de 'Mãe Coragem' de Bertold Brecht —em Lisboa no CCB numa encenação livre de João Garcia Miguel—, parece ser uma afilhada estética e contemporânea da tal do National Theater em Londres na qual saí antes do final há ano e meio atrás. No entanto, algumas diferenças fundamentais de salientar. Entre elas uma especificidade da adaptação do original que produziu uma considerável economia de meios humanos: a supressão de personagens. No meu exemplar de 'Mother Courage', (pela Grove Press, NYC, 1961), conto trinta e duas. Na adaptação presente no CCB, são cinco actores para cerca de quinze. Neste tour-de-force, apenas Custódia Gallego (Mãe Coragem) e Sara Ribeiro (a sua filha Muda) se mantêm constantes nos seus papéis ao longo da peça, indo os restantes actores interpretando de forma repartida um número plural de personagens. Tal opção, curiosa —e remota citação às «transformações» de Joseph Chaikin e do seu Open Theater—, acentua um ritmo frenético na narrativa, enfatizando ao mesmo tempo o efeito brechtiano de «distanciação» no espectador. Igualmente merecedor de comentário, positivo, é a metamorfose do elemento central, a carroça da Mãe Coragem, numa estrutura híbrida e múltipla, centrifugadora física da acção. Em contraponto, negativo, a pobre utilização dos tão anunciados elementos multimédia revela-se pouco criativa, banal e despropositada. Para concluir, duas observações finais: a tradução de algum vocabulário vernacular em calão «moderno», desajustado, e a composição excessivamente ridícula das personagens de Eilif e do Capelão, (com wakawaka à mistura), pareceram-me inapropriadas e reveladoras das decisões e interpretações estéticas do encenador. É uma questão de gosto, acrescente-se, e como se costuma dizer gostos não se discutem.

24.1.11

after all Mr. Mailer,

Robert Mitchum; a dançar

tough guys do dance.

uma questão de tradição

Comentava anteontem, ao meu Pai, que na representação da 'Mãe Coragem' do Brecht, no National Theater em Londres há ano e meio atrás, saí antes do final da peça. É compreensível, respondeu-me, pois os ingleses não têm uma tradição particularmente brechtiana. Apesar do seu método de distanciação e ruptura, intervalado por uma tendência vaudevillesca, Brecht não sugere a apropriação pop-rock sonora e visualmente excessiva e explosiva daquela encenação de Deborah Warner. Saí porque achei tudo uma palhaçada forçada e aborrecida. Agora, em Lisboa, teremos 'Mãe Coragem' no CCB. Vou tentar ir. Não propriamente pelo teatro do alemão mas para ver como lidamos nós com essa tal tradição brechtiana. Pelo que sei, «historicamente» não é nada mal.

21.1.11

'The Big Heat' (1953), de Fritz Lang

Bannion: What are you after?
Debby: I don't know. You, I think.

manhattan love song

«It's funny about a man», she went on, as though talking to herself. «In the beginning, they do all the running after you, they can't let you alone, can't live without you. And then just as soon you begin to see things their way, and tell yourself ''Yes, he was right, I can't live without him neither'', they seem to have gotten over it.»

O que a femme fatale Maxime acha divertido num homem, nesta passagem do livro noir de 1932 de Cornell Woolrich, é muito simples. Chama-se «sedução masculina». Acção que faz com que um homem não descanse enquanto não tem a mulher que quer e que já não a queira mais depois de a conseguir. Interessante também perceber, como igualmente demonstrado por Woolrich em 'Manhattan Love Song', que por vezes acontece precisamente o contrário. Uma acção em que um homem não descansa enquanto não tem a mulher que quer e que já não queira mais nada excepto ela depois de a conseguir. A isso chama-se «sedução feminina». Justo, no mínimo, e assim compreensivelmente divertido para uma mulher como Maxime.

20.1.11

first week in motherland

Regressado há dias de mais uma temporada nova-iorquina, escrevi —já com o obrigatório afastamento sobre o assunto— um post acerca do meu descrédito num par de intituições, cujos nomes por decoro não revelei, com responsabilidades culturais em Lisboa e com as quais iniciei negociações o ano passado para parcerias em projectos de acção cultural na cidade. Em seguida publiquei-o aqui para retirá-lo poucos minutos depois pois pensei que poderia dessa forma dar continuidade a um recomeço, a uma segunda oportunidade. Foi um derradeiro acto de confiança que não durou muito. As chamadas telefónicas de hoje de manhã comprovaram as minhas anteriores suspeitas. Como escreveu Tácito, uma má paz é ainda pior do que a guerra. Neste caso, concordo com ele. Vamos a isso.

6.1.11

um bom método



Para acabar uma discussão.

1.1.11

mais do mesmo

Achar que a Passagem de Ano é sinónimo de mudança é absurdo. O ano passa, de facto, mas tudo o resto fica. A roupa suja à espera na máquina, o óleo do carro em baixo e o seu infame mau-feitio pela manhã. Que não se espere do Calendário Gregoriano grandes milagres.

life scritp

Queria obsessivamente definir o filme das suas vidas como «romance».
Mas nunca deu nada mais do que diálogos e mise-en-scène «noir».

ano novo

Ainda antes do almoço retiro dois nomes da minha lista do Facebook e outro da minha lista de contactos. O Ano Novo tem de começar por algum lado.

30.12.10

don't you dare, darling

29.12.10

aftermath

A cidade está lentamente a recuperar da tempestade de neve. Ruas e passeios continuam intransitáveis, automóveis bloqueados, transportes públicos com serviço muito reduzido. No rescaldo partilham-se as histórias do nevão: famílias separadas, passageiros retidos horas a fio, estragos e prejuízos de muitos que fizeram o lucro de poucos. Está latente um cansaço generalizado, pós-orgíaco. Não se sente uma extraordinária energia colectiva e comunitária na recuperação da normalidade. Um nevão não é um ataque terrorista, nem uma forte causa social, nem uma nova realidade política, nem mesmo um cataclismo raro e por isso digno de nota. É apenas algo que acontece de vez em quando, um dado adquirido. Como tal cada um trata do seu pedaço devagar, sem grande entusiasmo, deixando o sol, o calor ou outra coisa qualquer chegar para normalizar as suas vidas. Neste cenário, e perante as dificuldades das equipas de remoção, o Mayor pede paciência, mas é precisamente paciência o que menos se nota nas pessoas. Com carruagens de metro cheias e morosas, autocarros desactivados, filas intermináveis nos supermercados, o nível de irritação encontra-se acima da média. Todos irritam, todos se irritam, tudo dispara ao mais leve sinal. Desculpo assim com a envolvente a tua fuga drástica e repentina de mim no cruzamento uptown. Afinal não és super-mulher; és apenas de carne e osso. Like everybody else.

28.12.10

morning view

NYC Blizzard, 2010, copyright PDB

Para completar a colecção.

27.12.10

breakfast

Saio de casa de Hasselblad em punho com a chegada da tímida luz da manhã. O primeiro passo na neve, onde fico tapado até ao joelho, dá-me conta da tarefa que me espera. Os carros estão cobertos, tal como a estrada. Um morador raspa lentamente com uma pá o monte de neve acumulada no passeio em frente ao seu lote. Vou seguindo rua fora; com dificuldade pois a tempestade ainda não passou. O vento forte faz parecer tudo pior, revolvendo os flocos no ar a uma velocidade que fere a pele e os olhos. No meu desconforto não avanço mais do que meia dúzia de quarteirões pela vizinhança. As ruas do meu quotidiano ganham um sentido de estranheza e distância. Desertas, abandonadas, camufladas; agora irreconhecíveis. Um nevão messiânico, inesperado contraponto da excessiva quadra consumista e caótica que passou. Passo pelo supermercado e o pão fresco não chegou. Talvez castigo de Deus.

night blizzard

© Arthur Fellig 'Weegee'

Finalmente a neve chegou à naked city.

24.12.10

a última ceia

Hoje não neva. Este ano ainda não nevou grande coisa. As ruas não parecem o postal ilustrado típico da quadra. Mas a multidão está ao rubro, energética. Sente-se nela o tal êxtase da amontoação conjunta que descreve Baudrillard. Uma agitação animalesca, um nervoso miudinho colectivo. Centenas, milhares; todos num fluxo frenético de última hora. Como se o mundo acabasse noite dentro e a hora do nascimento de Cristo, que morreu por todos, fosse a da última ceia dos que a ele sobreviveram.

dia vinte e quatro

Preparamos a ceia dos exilados. Percorremos a cidade separadamente em missões distintas antes que chegue o Apocalipse. Vinhos na 3rd, pães e bacalhau mais a norte. Os queijos e enchidos comprados no que resta do decadente bairro italiano, tal como os doces e o panettone — célebre tradição familiar das tuas raízes italo-brasileiras, contaste-me um dia. Depois juntos. Exilados de todos; exilados um no outro. E a metrópole se quiser que se torne ruína.

23.12.10

on artificial centrality;
quatro plates de Lorca diCorcia
para um texto de Baudrillard






«Why do people live in New York? There is no relationship between them. Except for an inner electricity which results from the simple fact of their being crowded together. A magical sensation of contiguity and attraction for an artificial centrality. This is what makes it a self-attracting universe, which there is no reason to leave. There is no human reason to be here, except for the sheer ecstasy of being crowded together».

22.12.10

our gang of two

«Such is the whirl of the city, so great its centrifugal force, that it would take superhuman strength to envisage living as a couple and sharing someone else's life in New York. Only tribes, gangs, mafia families, secret societies, and perverse communities can survive, not couples. This is the anti-Ark. In the first Ark, the animals came in two by two to save the species from the great flood. Here in this fabulous Ark, each one comes in alone — it's up to him or her each evening to find the survivors for the last party».

Em 'America' (1986, Edições Verso London-New York 1988/2010), Jean Baudrillard elabora uma sequência de reflexões sobre viagens pelos EUA. É, em parte, um livro de período, zeitgeistiano, mas paralelamente intemporal. Das suas observações, nenhuma me toca de forma tão particular como a acima transcrita do capítulo 'New York'. A alusão ao episódio bíblico da Arca de Noé como a antítese à desagregação do casal contemporâneo indicia o desapontamento característico do pós-modernismo. Baudrillard, ofuscado pela profusão e velocidade dos corpos na densidade da paisagem urbana, onde milhares de pessoas parecem «não ter outro propósito do que produzir o cenário permanente da cidade», não consegue encontrar uma outra Nova Iorque. Na sua leitura, o francês enuncia o movimento visceral, fruto de uma força centrífuga, a par e passo com uma solidão sem limites. É esse mesmo sentimento de solidão e distanciamento social que o leva a elaborar a tese de que apenas seres unidos por algo maior que um parco interesse comum podem sobreviver. Os solitários também por lá andam, na luta nocturna sem rumo, à deriva. Condenados.

Nós sobreviveremos.
No nosso gangue de dois.

18.12.10

L'Ámerique

Tocqueville, Doisneau et Baudrillard.
A democrática, a burguesa e a sideral.

wilson ave

Mudei de casa. Trabalho agora virado para uma janela de esquina. Hoje, fechado na conclusão de um trabalho que se arrasta, paro uns instantes para ver a vida passar através dela. Os barulhentos bólides de vidros fumados dos porto-riquenhos, as famílias mexicanas em passeio, os hipsters de ressaca, os carros-patrulha da polícia, os bombeiros, as sirenes, as sirenes, as sirenes. O preacher man da Iglesia Unida que já se faz ouvir no altifalante ao ensaiar o sermão. Amanhã, Domingo, será mais um dia de reunião confessional e igreja e Rua —o adro da hiper-modernidade— estarão novamente povoadas por crentes latino-americanos. Os gritos de êxtase do discurso religioso ecoarão ao longo da Wilson Avenue num raio de três quarteirões. Alguém anónimo, como sempre, gritará de uma janela remota shut the fuck'up. Não surtirá grande efeito. A religião falará mais alto.

jack dempsey



carrying his wife.

16.12.10

class and american realism

O campeão mundial de pesos-pesados Jack Dempsey casou com a actriz Estelle Taylor, (foi a sua segunda mulher), em 1925. Por essa altura o casamento era fresco e energético; depois tornou-se num combate. Durante a separação, em 1933, um admirador aproximou-se de Estelle por um autógrafo numa fotografia do casal que continha já no topo a assinatura de Dempsey. A actriz escreveu «this is the last time that son-of-a-bitch will be on top of me». Venceu o round mas não o combate. O campeão casou duas vezes mais, ficando assim on top de outras quaisquer.

13.12.10

classes and american realism



Definido como um dos dez combates do século —Mailer talvez dissesse que não— o encontro em 1923 entre o campeão do mundo Jack Dempsey e o argentino Luís Firpo ficaria igualmente para a História da Arte pelo pintor da vida moderna George Bellows. Antes do instante retratado no quadro, Firpo foi sete vezes ao chão em menos de três minutos. Depois, numa recuperação momentânea e extraordinária, o argentino consegue uma sequência de golpes ferozes e empurra o adversário para fora do ringue. Dempsey cai em cima dos elementos da imprensa presentes e fere a nuca numa máquina de escrever. Segundos depois está novamente em acção e acaba por vencer o combate a Firpo, por knock-out no segundo assalto, mantendo assim o seu título. O episódio fez furor e ficou gravado em filme e em fotografia, ambos de um outro ângulo diferente do quadro de Bellows. Este, por sua vez, estava no local e esboçara uma ilustração da cena (para o jornal socialista 'The Masses' com o qual colaborava) de um ponto de vista bem particular: segundo o artista, Dempsey ao sair das cordas caiu em cima de si e foi o próprio Bellows um dos que ajudou o boxer a voltar ao ringue. Teremos de concordar que, do ponto de vista da veracidade, para um «realista» tamanha proximidade não poderia ser melhor. E, embora derrotado, aos olhos de Bellows foi Firpo o vencedor. Pela força revoltada contra o poder mais forte, naquilo que me parece uma clara analogia de Bellows para outros carnavais.

10.12.10

classes

Entra um espanhol, um italiano e um português numa sala cheia de americanos.
Parece anedota mas não, são apenas as minhas aulas de Large-format photography.

un certain regard



Para quando me perguntavas que «tipo de mulher» és tu.
Fisicamente, aqui está a resposta. De feitio, nem por isso.