24.11.09

the myth of sisyphus



Sísifo, eternamente condenado à tarefa inútil.
Aquele a quem Camus chamou de «herói absurdo», «proletariado dos Deuses».

all the rest comes afterwards

Não seria justo falar de suicídio sem falar de Camus. Não que ele o tenha cometido e tornado num paradigma, como sabemos tal nunca aconteceu, mas sim pelo seu contributo ao tema com o ensaio 'O Mito de Sísifo'. Camus afirma, e toscamente traduzo, que não há problema filosófico verdadeiramente sério como o do suicídio. Julgar se a vida vale ou não ser vivida equivale responder à questão fundamental da filosofia. Tudo o resto — se o mundo tem ou não três dimensões, se a mente tem nove ou doze categorias — vem depois. Ainda antes, no prefácio, Camus é peremptório: «mesmo não acreditando em Deus, o suicídio não é legítimo». Com esta frase renega igualmente aos ateus legitimidade para o acto, visto que os tementes a Deus não poderiam nunca cometer tamanho pecado de irreverência perante os desígnios do poder divino. Não deixa de ser uma frase curiosa de quem rejeitou a religião e por conseguinte Deus. Nesta sua assunção há claramente uma influência inconsciente do seu legado judaico-cristão; educativo. Talvez por isso ela seja, sobretudo, um erro. Como espectadores globais que somos e por muito que o condenemos, sabemos que existe precisamente o contrário: apenas acreditando em Deus —e por Deus— o suicídio é «legítimo». Mas igualmente por «paixão», como nos mostrou Stendhal, por «glória», como nos mostrou Schrader, ou por «honra», como nos mostrou Kobayashi. Camus que não venha com tretas.

16.11.09

bourgeois existence or suicide (3)

Calculo a distância do meu terraço até ao chão do logradouro. Cinco pisos vezes três metros cada um. No piso térreo há ainda uma clarabóia de vidro que ilumina uma cave. Mas digamos que esses metros adicionais da clarabóia ao chão da cave já não contam. Quinze metros, portanto, até ao primeiro embate; o que seguindo a fórmula clássica dá um tempo de queda de aproximadamente 1,75 ''. Imagino o salto. Elegante, se elegância for alguma vez possível para alguém do meu tamanho, e libertador. Talvez de olhos fechados, nos primeiros setenta e cinco centésimos de segundo. Imediatamente depois desse tempo dar-se-ia a tomada de consciência do acto único e do ponto de não retorno. E seria onde começaria o grito. Todos os que saltam gritam; de medo, diz-se. Terminariam — grito e medo — no choque com a estrutura de vidro. Estilhaços espalhar-se-iam por todo o logradouro e o corpo, mais lento, cairia os três metros adicionais até ao chão da cave. ** Mas eu estou ainda cá em cima, a imaginar toda a trajectória em câmara lenta com um interesse puramente cinematográfico. O cenário é agora violento e brutal. Um corpo nu, quebrado e rasgado, enroscado numa estranha e improvável forma. A mancha de sangue escuro, por trás, aumenta lentamente o seu diâmetro, criando uma moldura visceral ao espectáculo grotesco.

O suicídio físico é drástico e perturbador.
O emocional também, a diferença é que não se vê.

post-mortem

Um dos detalhes menos esperados no suicídio de Theresa Duncan foi o facto de poucos meses depois terem surgido dois posts no seu blogue. Theresa agendara-os para que aparecessem com alguma distância temporal (e emocional) dos acontecimentos. Um relata uma pequena história de coincidência ou misticismo, com o actor Basil Rathbone na primeira pessoa, e outro, o último, uma citação e um poema, ambos de T.S. Eliot. Jeremy nunca chegou a lê-los.

11.11.09

bourgeois existence or suicide (2)

Existência burguesa ou suicídio. O manifesto da peça de Bruckner leva-me a uma outra memória: os suicídios de Theresa Duncan e Jeremy Blake a meio de 2007. A história dramática e romântica rebentou na cidade como uma bomba. Vi a notícia em parangonas no popularucho Post, num metro em hora-de-ponta a caminho de Downtown, entre opiniões trocadas por diversos passageiros. As teorias de conspiração multiplicaram-se nos dias posteriores, com nomes à mistura como o de Beck ou o da Igreja de Cientologia. Mas o que parece ser verdade é que quase uma semana depois do suicídio de Theresa por ingestão de comprimidos, aos 40 anos, Jeremy, de 35, lançou-se nu ao mar na praia de Rockaway Beach ao sul de Brooklyn. A este casal de bem-parecidos e sucedidos artistas residentes em NYC, juntos há mais de dez anos, a Vanity Fair dedicou um artigo que apelidou de 'The Golden Suicides'. Estão bonitos e serenos na fotografia, iluminados pela mesma luz intensa e saturada com que Edward Lachman fotografou o filme das virgens de Coppola. No bilhete encontrado nas roupas de Jeremy dizia I am going to join the lovely Theresa. Espero que o tenha conseguido.

10.11.09

fashion victims

Muitas mulheres teimam em seguir tendências cujas roupas em nada favorecem 1) o seu corpo e 2) a sensualidade feminina. Como se elas não soubessem ou nem sequer sonhassem o que mais ou menos agrada a um homem. Mas bem, compreendo que na verdade se estejam nas tintas. As mulheres vestem-se para agradar exclusivamente às mulheres. O que nos leva a uma outra conclusão: de todas, as maiores vítimas da moda são os homens.

bourgeois existence or suicide

Uma pausa na leitura de 'Twenty Thousand Streets Under the Sky', trilogia de Patrick Hamilton que ainda ando a ler, faz-me reparar com calma no marcador improvisado: um postal da peça 'Pains of Youth' do Bruckner que fanei da bilheteira do National Theater. No verso pode ler-se: Bourgeois existence or suicide. There are no other choices.

Curioso, mas tem tudo a ver com o livro.

8.11.09

six kinds of terrain

Copyrigth Image: Marina Ballo Charmet

Sun Tzu said: We may distinguish six kinds of terrain, to wit: (1) Accessible ground; (2) entangling ground; (3) temporizing ground; (4) narrow passes; (5) precipitous heights; (6) positions at a great distance from the enemy.

Eu diria o 2.

o conhecimento possível (4)

No seu histórico livrinho 'A Arte da Guerra' (século VI a.C.), Sun Tzu dedica um capítulo ao 'Terreno' e à importância dos seus reconhecimento e classificação. Perceber a topografia, a vegetação existente e as características climatéricas e consequentemente categorizá-las é fundamental para a construção da táctica bélica. O conhecimento das condicionantes e potencialidades geográficas como elementos determinantes para o sucesso de uma acção é assim milenar. Seja em rocha, areia, gelo, pele, carne ou osso.

das tendinites; efeitos secundários

Temporariamente fechado em casa limitado por uma tendinite no ombro esquerdo, percorro estes anos de blogue como quem folheia um jornal antigo. Há, no entanto, uma diferença fundamental: uma velha notícia já não impressiona — ou não impressiona tanto como o fez à data da sua actualidade — da forma como um velho post o pode fazer a quem o escreveu. A notícia, sendo de (e sobre) outros, adquire com o tempo um certo e natural distanciamento. Um post será assim o oposto pois é uma memória pessoal, uma reaproximação a um determinado momento realmente vivido. Custa menos folhear jornais antigos.

relação a três

O homem, a mulher e o telefone dela.
O pouco estimulante threesome do século XXI.

falar verdade a mentir

Como testado e provado, por vezes deverá fazer-se como naquela peça do Almeida Garrett e falar verdade a mentir. Ao que parece, ele sempre o soube; Garrett o sedutor, a quem um dia chamaram uma espécie de homem-fatal.

7.11.09

o conhecimento possível (3)

Isto de conversar com um determinado tipo de mulheres e levar a coisa a bom porto, como se sabe, não é algo que se aprenda assim do pé para a mão. Convém treinar alguns termos de substituição a certos adjectivos perigosos e outros tantos guias de conversação para situações delicadas. Em termos comportamentais, para começar, se uma mulher for notoriamente femininista chamamos-lhe 'perseverante', se for autoritária escolhemos 'empreendedora' e se for parva tratamo-la por 'mimada'. Quanto às questões físicas — porque há sempre questões físicas — se estiver um pouco magra dizemos 'elegante' mas demasiado magra dizemos 'muito esguia'. Se estiver um pouco gorda será igualmente 'elegante' mas para demasiado gorda a palavra adequada será 'voluptuosa'. Se estiver no ponto, sem dúvida que é 'muito elegante' o comentário correcto e depois disso tentamos não ser muito indiscretos. Numa óptica intelectual, se for um pouco burra dizemos 'distraída', se for demasiado burra dizemos que temos de ir ter com uns amigos. Se for pouco inteligente respondemos 'talvez, quem sabe?' em vez de 'não', se for o contrário respondemos 'talvez, quem sabe?' em vez de 'sim'. Se for pouco culta falamos de best-sellers, se for demasiado culta provavelmente deverá ser igualmente demasiado feia e aborrecida e por isso dizemos que temos mesmo mesmo de ir ter com uns amigos. Isto de conversar com mulheres e levar a coisa a bom porto, como se sabe, não é algo que se aprenda assim do pé para a mão. Não obstante, aumentar o conhecimento vale o esforço. O conhecimento possível, acrescento, que mesmo assim é sempre muito pouco.

31.10.09

o conhecimento possível (2)

O mais interessante em 'Three Transitions', video-performance de 1973 de Peter Campus, é exactamente a provocação sobre a «descoberta de identidade». Nas suas transições, seja rasgando, pintando ou queimando, o «Eu» reencontra-se sempre igual a si mesmo. No fundo, em termos conceptuais, nunca mudamos, ou quando pensamos que tal acontece descobrimos que a revelação não é nada mais do que mais do mesmo. Disse-te que está em transição? Pois diz-lhe tu que vá à merda.

o conhecimento possível



Hari: Conheces-te mesmo?
Kris Kelvin: Não mais do que qualquer outro.

'Solaris', 1976, de Andrei Tarkovsky.

26.10.09

including a lot of piglets



'I originally wanted 1500 pigs for the climatic sequence of the gang fight in the middle of the [Yokosuka's] red-light district, but we ran out of money. The head of Nikkatsu [studios] was furious with me. In the event I had to make it with only 400 pigs, including a lot of piglets. I had to do the best I could within the financial restraints.'

Shohei Imamura numa entrevista a um senhor que desconheço chamado Toichi Nakata, editada num livrinho pela Cinemateca de Ontário (pág115). Como agradecimento ao Gross, por falar em Japão.

ainda do facebook

Quem sabe como a coisa funciona sabe que se pode escrever a torto a direito 'what's on your mind', como eles (quem desenha o Facebook) o põem. Resolvi então escrever, finalmente, algo que me ia pela cabeça como prova de envolvimento com a minha "comunidade". Saiu-me uma espécie de post sobre cinema japonês que não só 1) faz lá falta alguma; como 2) não tem grande interesse para ninguém. Acho que não tenho muito jeito para aquilo.

21.10.09

the lower part



O 'Twenty Thousand Streets Under the Sky' de Patrick Hamilton dá assim ares de que poderia ter servido de base referencial para alguns filmes do Shohei Imamura. Porque se pensarmos no que disse Imamura —I am interested in the relationship of the lower part of the human body and the lower part of the social structure— vemos que não é muito diferente do que fez Patrick Hamilton. Entre a atmosfera de lupanar de um e de outro deixo esta foto de Anders Petersen a ambos. É que ela também contém a relação entre a lower part das duas coisas.

a humilhação sentimental

A descoberta de 'Twenty Thousand Streets Under the Sky', numa livraria de bairro a semana passada em Londres, fez-me rever mentalmente outros ensaios sobre a humilhação sentimental. Nesta trilogia de Patrick Hamilton (1904-1962) encontramos pontos de conexão com a angústia exaustiva em 'Of Human Bondage', do seu conterrâneo e contemporâneo Somerset Maugham, com o penoso rebaixamento em 'Sonata a Kreutzer', de Leão Tolstoi, ou ainda com a raiva implodida em 'Fadren' de August Strindberg. Na Literatura, na dramaturgia ou na vida, é secular esta crueldade feminina no amor. Ou melhor, na falta dele.

20.10.09

blame reece; or yates

Costumava chegar aos Domingos muito tarde. Via o quartel mal apeava na paragem de autocarro do outro lado da praça. Geralmente tinha tempo para jantar —antes de entrar e apresentar-me ao oficial de serviço— num café de esquina e fazer tempo pela hora limite de chegada: a meia-noite. Dos outros que como eu tinham tido licença de fim-de-semana, alguns já por lá estavam. Comíamos bifes de cebolada e compartíamos com as putas do jardim em tempo de folga as imagens na televisão. Elas eram velhas, nós éramos miúdos. Elas eram «colegas» porque no exército colegas são as putas e nós éramos «camaradas» porque no exército colegas são as putas. Jogava-se à moeda por mais uma rodada. A dona do café tinha uns arrumos ao fundo que nos deixava utilizar para trocar a roupa civil pela farda. Inicialmente, aquele buraco era o nosso último reduto de liberdade para o resto da semana. Entrando no quartel a nossa identidade seria aniquilada. Tornar-nos-íamos em apenas mais um recruta, um número, um apelido quanto muito. O processo não foi longo e ao fim de dois meses a liberdade foi totalmente recuperada. Mas há coisas que ficaram para sempre. Nomes de pessoas e de terras que nunca mais escutei na vida. Em sessenta dias os pontos de vista multiplicaram-se, alianças formaram-se. Num ambiente assim não há escapes para falsos caracteres. O que cada um é vem sempre ao de cima entre o esforço físico e a privação psicológica. Ficamos sobretudo a conhecermo-nos melhor do que conhecíamos. Tivemos sorte com o tenente do nosso pelotão. Era um homem justo e exemplar como o Sgt. Reece de Yates. Com a diferença que ficou connosco até ao fim, cumprindo assim o "objectivo que é a recruta". Talvez por isso tenha tido sempre a sensação que o serviço militar obrigatório não foi na realidade uma perda de tempo. Mesmo para um miúdo com dezoito anos.

hanako



Hanako, a mais bíblica das personagens de Oshima. Em 'The Sun's Burial', o mais viscontiano dos seus filmes. Entre traições e duplas-traições ela é Dalila; num mundo onde todos os outros são irremediavelmente Sansão.

jody rolled the bones

Um narrador melancólico remete-nos, na primeira pessoa do singular, para a experiência de um pelotão formado por pós-adolescentes durante a recruta militar. Os tempos são de guerra (1944, ficamos a saber) mas como o próprio afirma esta já não é uma novidade. O que é novidade para este grupo de imberbes é a figura do sargento Reece, o responsável pela transformação de vadios em homens, máxima moral e universal do recrutamento. Reece é um homem magro, esguio e calmo — não exactamente o que se esperaria que um sargento fosse, acrescenta — e aos poucos demonstra que pode ser igualmente cruel e draconiano. Contudo, debaixo das suas ordens há um sentido de justiça que lentamente torna o inexistente entusiasmo do grupo de jovens em «cooperação». Reece consegue essa transformação pelo respeito e admiração que provoca com o seu exemplo e não pelo terror ou superioridade hierárquica que poderia exercer. He led by being excellent, é assim que o narrador coloca as coisas. Por esse «exemplo» juntam-se todos no objectivo ulterior: prepararem-se homens para a guerra. No entanto, a um dado momento, Reece é afastado para outra unidade. Quem o substitui é fraternal, companheiro, jocoso e conivente com o descrédito da instituição militar. Os quase-homens voltam a miúdos, o objectivo perde-se entre escárnio e ociosidade. Então de repente questionamo-nos como encaixa esta história em 'Eleven Kinds of Loneliness'. Uma história que relata o crescimento do sentido de camaradagem & união e um ritual de passagem no plural. O esprit des corps não é em nada relacionado com a solidão. Como resposta centramo-nos em Reece: exemplar, temível, distante, inflexível e justo para quem merece.

Quem comanda bem estará sempre invariavelmente só.

19.10.09

the man from yonkers



Encontramos nas short-stories de Yates, que se focam (maioritariamente) no período pós-guerra da exaltação do american dream, uma «suburbanidade» latente em cada linha; sem necessidade de forçar uma localização geográfica específica na narrativa ou tão-pouco de referir algum afastamento à metrópole agregadora. Esta «suburbanidade» é subliminar, cobrindo a pele de todas as personagens nos pequenos-nadas, tiques, trejeitos, comportamentos, subjectividades gramaticais e até sotaques. O mais extraordinário é que é, acima de tudo, muito contemporânea.

13.10.09

eleven kinds of loneliness

Uma das short-stories que compõem 'Eleven Kinds of Loneliness', de Richard Yates, contrapõe a sensibilidade feminina com o generalizado e conhecido «egoísmo masculino». Em 'The Best of Everything', ambiente corporate fifties nova-iorquino, acompanhamos Grace e Ralph na noite anterior à sua partida para a Pensilvânia, onde irão casar. Grace sofre um certo estado de pânico. Indecisa, questiona-se por que razão casará com Ralph. Ao fim e ao cabo, nas suas palavras, mal o conhece, sentimento de desafectação que flutua entre a impressão oposta e até compreensível de que não poderia casar com Ralph por conhecê-lo bem demais. Mas o que interessa a Yates explorar não é realmente a luta interior de Grace mas sim um determinado machismo patente na sociedade e na tradição. Grace, independentemente do conflito da sua decisão, estará sempre pronta para Ralph, o homem, ou the one who provides. Na noite em que elabora uma sedução para irem para a cama pela primeira vez, véspera da viagem e por conseguinte do casamento, Ralph descarta-a em prol dos seus amigos e da festa surpresa que estes lhe dedicaram; sabendo que no dia seguinte poderá reclamar o que já será seu «por direito». Este homem simples e simplório — "he says terlet", diz-nos ela — parece seguir uma velha máxima: o amor passa mas as amizades ficam. Assim, será sempre mais prudente e glorificante preservar a segunda em relação à primeira. A amizade, como o título sugere, é o melhor de tudo. A mulher não é mais do que um complemento lógico de uma cronologia predefinida. E Grace fica desde logo avisada: não poderá nunca contar verdadeiramente com o marido.

Casada mas sozinha; um de «onze tipos de solidão».

9.10.09

facebook (4)

facebook (3)

Não é que uma coisa seja verdadeiramente comparável com outra, ponto número um, mas entre dois mundos diferentes e que correm o risco de ser algo falsos e ilusórios, como o Facebook e a blogosfera, há algo a dizer. Tal como o primeiro, em alguns casos, é uma realidade maquilhada —mas que não deixa de ser uma «representação da realidade»— o segundo, para alguns, pode não ser mais do que uma pretensão sociocultural, uma «fantasia», uma aspiração a um outro status através da insinuação de uma realidade inexistente. Facebook e blogosfera, realidade e simulacro. Baudrillard, se fosse vivo, teria aqui muito pano para mangas.

facebook (2)

No Facebook, através dos chamados amigos dos amigos dos amigos dos amigos, dá-se a descoberta de que um ou outro tipo verdadeiramente arrogante que conhecíamos apenas de nome & de blogue não passa de uma fraca figura. Não há nada como a blogosfera para produzir falsos leões.

8.10.09

facebook



No Facebook encontram-se conhecidos de longa data que os anos e a vida separaram. Mas, para além destes mesmos anos, há algo de diferente em muitos deles. O 'Macaco' dos tempos de escola, por exemplo, já não é o 'Macaco' mas sim Fulano da multinacional x, de igual forma que o 'Turbo' do liceu já não é o 'Turbo' mas sim Beltrano da empresa y. No Facebook, as alcunhas — ao contrário dos diminutivos — já não existem, desapareceram com os resquícios da adolescência e o início das responsabilidades profissionais. Lá, somos todos muito adultos e sobretudo muito politicamente-correctos, porque, como é sabido, a crueldade das alcunhas é coisa de crianças.

1.10.09



COLLEC.tiff é um happening de 48 horas, um evento de arte e música colectivo à margem do circuito comercial. Começámo-lo em Fevereiro, em Barcelona, numa casa vazia e grande no Barrio del Born. As salas foram ocupadas com diversos acontecimentos, de videoarte a exposições de fotografia e live dj performances. Tivemos também a projecção do documentário 'Ada y Kabir', de Marcarena Ovalle, com a presença da realizadora e um breve Q&A.

Agora é Lisboa. Exposição colectiva comissariada por Patrícia Barreira. Live djs da nossa blogosfera: Ricardo Gross; Menina Limão & O Senhor; e outros fora dela: You can call me John; Tony Montana; e Indiecator. Há desenho, escultura, fotografia, pintura, performance, video, música "rock pop indie whatever", copos e comida vegetariana. A entrada é gratuita.

Estes Sábado e Domingo, 3 e 4 de Out., das 18h às 02h,
na Crew Hassan, Cooperativa Cultural
Rua das Portas de St Antão 159, Lisboa (
mapa).



Adenda (06.Out.2009):
A organização contabilizou em cerca de 170 o número de pessoas que passaram pelo evento durante as duas noites. Aos participantes (curadora, artistas plásticos e djs), à equipa da Crew Hassan e aos amigos, conhecidos e desconhecidos que se juntaram fica aqui o meu agradecimento público. Obrigado a todos.

30.9.09

hyper-modernity, say it again

A hipermodernidade de Lipovetsky por aqui tão badalada torna-se ano para ano cada vez mais evidente. Permite coisas sociais extraordinárias — e ao dizermos coisas queremos dizer transformações, metas e meta-transformações — como por exemplo eu estar na casa dos trinta e ter uma mãe que vai de Erasmus. Depois, nesta hipermodernidade, hei-de ser eu a ir visitá-la à sua casa de estudante em Florença, (creio), perguntar-lhe se os vizinhos são sossegados e se a área é segura. Se precisa de tupperwares novos ou de algum edredão, se tem pimenteiro ou talheres de sobremesa. Haveremos de ir a um Ikea italiano comprar as chamadas coisas básicas para o lar, efeitos de uma propaganda igualmente hiper-moderna. Já cá, hei-de telefonar a saber se está tudo bem e oferecer-me para alguma responsabilidade acrescida como ir pagar a internet, luz ou alguma quota em vias de atraso. E hei-de, sobretudo, perguntar pelas notas, sempre muito reflectivo na resposta rápida ouvida pelo outro lado do telefone.

Não há dúvida de que se eu pensava que o cúmulo da hipermodernidade era viver em Nova Iorque por estar a viver em Nova Iorque, isto prova que estava bem enganado. Uma mãe em Erasmus é bem mais hiper-moderno.

das pequenas vinganças

Os homens, independentemente da idade, são tendencialmente desajeitados, impacientes e trapalhões nas suas tentativas de pequenas vinganças. Esta desproporção, podemos dizer, entre uma acção e um sentimento menor (pois não é uma grande vingança) é algo que não lhes é francamente natural. As mulheres não; são ligeiras e discretas, ágeis e casuais. Tanto que por vezes, aos olhos de terceiros, os seus actos de pequenas vinganças nem chegam a parecer uma «vingança» mas sim outra coisa qualquer.

«Desprezo», por exemplo. Nada mais natural.

29.9.09

delon und schneider



Primeiro rattle, depois hum.

28.9.09

rattle and hum

'The machine rattled as if there were a marble inside, anyway something loose inside, then settled to a hum.' Em 'Collectors', de R. Carver.

Geralmente, entre homens e mulheres, é tudo como o aspirador no conto de Carver: começa num rattle e acaba num hum.

27.9.09

da abstenção

Oiço toda a gente queixar-se mas pelos vistos só um pouco mais de metade votou.
Assim não dá. Assim não se queixem.

21.9.09

O casamento de Patrick Kavanagh

Não me lembro de um noivo com um olhar tão apático e desinteressado ao cortar o bolo no dia do seu casamento. Mas sabendo que o noivo é Patrick Kavanagh o fenómeno não será de estranhar. Afinal, o homem de quem disseram ter a capacidade de transformar o banal em algo significativo mostrou ter igualmente a capacidade de transformar o significativo em algo banal.

try the dog-tracks now and then

No poema 'Irish Poets Open Your Eyes', Kavanagh incita laconicamente os seus pares a arriscarem, a soltarem-se, a serem vulgares, ordinários, a pouparem para casar e até, de vez em quando, a apostarem nas corridas. Bukowski, embora não irlandês, em quase tudo seguiu o conselho.

portrait of the artist as a young farmer

Antoinette Quinn descreveu Patrick Kavanagh (1904-1967) como um homem cativante para os amigos e um monstro para os que deliberadamente repudiava. Diz ainda que a sua rudez se tornou legendária. Na verdade, foram algumas as batalhas travadas por Kavanagh: o desprezo pela elite literária de Dublin; e a aversão à falsidade do Literary Revival de John Synge e W. B. Yeats, afirmando que escritores de ascendência Protestante eram exteriores à consciência global da identidade irlandesa; não eram — ao contrário de si, católico e campesino tornado poeta — a voz do povo. Kavanagh era algo novo e genuíno para o círculo intelectual da capital e procurou sempre acentuar essa diferença com os demais escritores, geralmente pertencentes a uma burguesia bem vestida e comportada. Levou uma vida precária a todos os níveis; bebeu, insultou, apostou e acima de tudo provocou. Não obstante, devido ao realismo social da sua poesia inicial denunciante das condições da vida rural, desde cedo o seu talento foi reconhecido, tendo mais tarde recebido o epíteto de o Maior Poeta Irlandês desde Yeats. Mas o «maior» depois de alguém não é mais do que o «segundo». Não acredito que para Kavanagh isso tenha sido suficiente.

20.9.09

it's a long way to tipperary

'It's a Long, Long Way to Tipperary', musiquinha de vaudeville transformada em marcha bélica pelos soldados irlandeses do Connaught Rangers a caminho de Boulogne, na Primeira Grande Guerra, e mais tarde imortalizada no imaginário global pelos prisioneiros britânicos do 'La Grande Illusion', de Jean Renoir. É um longo caminho para Tipperary, mas em mais ou menos dez dias, mais ou menos 1300km, mais ou menos desvio lá se chegou.

in the shadows I exist

'Lavender', a Jouissance Production dentro do Dublin Theater Fringe Festival, é uma peça tecnicamente híbrida e duplamente metafórica. Numa narrativa atípica povoada de intersecções e cruzamentos cronológicos e oníricos, 'Lavender' percorre os caminhos da nostalgia e confronta o espectador com uma asfixia (termo em voga) desse mesmo percurso até ao seu colapso. Se a «nostalgia» é reforçada pela projecção multimédia nas quatro paredes da sala, a «asfixia» é personificada em palco por uma bolha plástica transparente habitada pela Infância até à sua ruptura. Em 'Lavender', o confronto com as memórias e a morte é sofrido e a sua materialização é catártica, parecendo querer gritar o velho ditado de que 'os mortos continuam vivos se a sua imagem for perpetuada'. Mesmo que sentimentalmente, mesmo como sombras; porque, como foi amplamente repetido, in the shadows I exist.

17.9.09

this is ireland (2)

Copyright Eoin O Conaill, Common Places

Nem aos mais distraídos escapam as referências a Stephen Shore por Eoin O´Conaill. Não unicamente pelo título da exposição e catálogo ('Common Place', Gallery of Photography, Dublin) mas igualmente pela abordagem conceptual do trabalho documental. O´Conaill (1979) explica que procurou registar uma Irlanda em mutação, longe dos habituais estereótipos da paisagem rural, por um lado, ou do cosmopolitismo moderno de um país bem-sucedido, por outro e mais recente. As fotografias incidem sobre uma certa banalidade urbana e foram feitas sobretudo em dois momentos do dia: ao amanhecer e ao anoitecer, metaforizando assim, nas palavras do artista, a transição entre o que desaparece e o que emerge. 'Common Place' de Eoin O´Conaill: this is Ireland. Uma sociedade nunca está devidamente representada como nos seus lugares comuns.

this is ireland

Embora tenha vivido a grande parte da sua vida adulta em Inglaterra, (emigrou depois da conclusão dos estudos no Trinity College, em Dublin), William Trevor (1928) consegue nas 1261 páginas do seu 'Collected Stories' uma radiografia sociocultural de um país complexo e em transformação: a Irlanda. Nas suas short-stories, o escritor e dramaturgo abrange diversas faixas da sociedade irlandesa (e inglesa também) através de uma galeria heterogénea de personagens e de contextos físicos & morais, desvendando uma realidade plural. Ao contrário dos norte-americanos Carver ou Cheever, igualmente de inclinação tchekoviana, que tendem a explorar segmentos sociais específicos — como a burguesia aborrecida dos subúrbios, o primeiro, ou a classe media suburbana à deriva, o segundo — Trevor amplia o seu espectro de observação percorrendo diversos cenários económicos e culturais, do cosmopolitismo urbano ao ascetismo rural, onde por vezes ressaltam os fragmentos passados de um conflito civil. Político e religioso.

Caso para dizer que as (cerca de oitenta) short-stories de William Trevor em road-trip são um excelso complemento. After all, this is Ireland.

12.9.09

Eire

Até agora, da Irlanda, posso dizer apenas uma coisa: a condução pela esquerda é de longe mais fácil do que compreender o sotaque desta gente. E aqui dá-se o paradoxo: apenas se conseguir compreender o sotaque desta gente consigo chegar ao destino rural predefinido. Mesmo pela esquerda. No fundo, em termos metodológicos, falar da Irlanda é falar de mulheres. Ou seja, a dificuldade não é a habilidade ou a prática mas sim a compreensão.

11.9.09

chabrol

O mestre da noirmalidade.

8.9.09

sete sombras



A prova de que Kurosawa e Hashimoto leram Plutarco.
(Nós agradecemos).

4.9.09

on a daily basis

Antes de Carver escrever aquilo que faz com que conheçamos realmente Carver, como por exemplo 'Cathedral' ou 'What We Talk About When We Talk About Love', há um conjunto de textos publicados sob o título 'Will you please be quiet, please?', de 1976. Nele, o autor norte-americano faz já uma incursão ao seu universo carregado de banalidade e vulgaridade quotidianas, desvendando igualmente o prenúncio daquilo que viriam a ser as suas personagens apáticas, desiludidas e pós-modernas num clima de aparente ameaça inconclusiva. Mas Carver estava ainda em formação — apetece dizer em metáfora e em inglês: Carver was still being carved — e debruça-se sobre episódios não tão banais; ou, indo mais longe, paranormais. Comparativamente ao que viriam a ser no futuro. Não obstante, deverá referir-se o seguinte: a «paranormalidade» de Carver não será a «parapsicológica» e espiritual cunhada pelos sensacionalistas dos finais do século XIX. É apenas algo para lá da normalidade. Porque, por vezes, a normalidade também se ultrapassa a si própria. Carver mostrou sabê-lo muito bem.

3.9.09

rattlesnakes et al



É interessante ver como Didion utiliza a imagem de cobras, serpentes e cascáveis como metáforas ou apenas através das descrições dos seus movimentos físicos e hábitos biológicos. Para além de fazê-lo na ficção, como é amplamente visível em 'Play it as it Lays', fá-lo da mesma forma nos ensaios político-sociais. Freud tem no seu 'Die Traumdeutung' a explicação para o fenómeno de encantamento da espécie. Compreenda-se: é que em tempos Didion já foi nova.

it was not a country under enemy siege

'It was a country of bankruptcy notices and commonplace reports of casual killings and misplaced children and abandoned homes and vandals who misspelled even the four-letter words they scrawled. Adolescents drifted from city to torn city, slouching off both the past and the future as snakes shed their skins. It was not a country in open revolution. It was not a country under enemy siege. It was the United States of America in the cold spring of 1967.'

Joan Didion, em 'Slouching Towards Bethlehem' do ano de 1968, naquele que poderá classificar-se como um inegável bom exemplo de involuntária previsão. Basta mudar-se o final para it was the United States of America in the cold spring of 2009 e bate tudo muito certo.

lei-seca

2.9.09

claude chabrol meets revista gina



Fotograma de 'Les Noces Rouges' (1973), de Claude Chabrol.
Mise-en-scène universal.

1.9.09

em agosto,

a vontade esteve acima de tudo muito sabática. Ou nem isso.
Recomecemos então.

noite de verão

O mar era visível da janela do sótão sobretudo nas noites de lua generosa. Entretinha-me a contar as ondas na rebentação como quem conta carneiros em lutas contra a insónia. Os adultos, lá em baixo, faziam-se ouvir até tarde, entre discussões exaltadas próprias dos tempos conturbados da revolução fresca e gargalhadas da sua (então) não menos fresca juventude. Os dias eram passados naquilo que me parecia um isolamento total. Não unicamente meu, mas daquele familiar grupo perante o resto do mundo. À casa e ao areal deserto não chegava vivalma nem mesmo durante o dia. Sendo a única criança, sentia-me o explorador solitário de tão virgem território. A janela do sótão era a ponte do meu barco imaginário, inspiração directa das aventuras de Salgari que nunca mais deixei. Daquele ponto controlava tudo, ou dessa forma assim o via, e por diversas vezes preferi-o à imensidão do areal. Numa noite, já relegado pela hora tardia para o meu quarto no sótão, assisti da janela aos gritos que alguns do grupo lançavam a correr em direcção à água: o mergulho da meia-noite à luz da lua. Foi nesse momento que invejei pela primeira vez a idade adulta, nunca imaginando que chegaria o dia, já adulto e também a mergulhar num mar escuro numa noite de lua cheia, em que daria tudo para voltar atrás àquele preciso momento. A infância é um bem valioso e o único verdadeiramente irrecuperável. Como a vida me viria a ensinar.

do bloco de notas

A verborreia despejada no bloco de notas, mais tarde repassada a pente fino, pode ser encarada de duas maneiras distintas: 1) antologia de um carácter solitário ou 2) breviário de um aborrecimento anunciado. Em ambas as leituras, há claramente um denominador comum. Estritamente no bloco de notas.

31.8.09

obra ao vazio

Os vazios espaciais de Oteiza, mitos de outrora na minha formação, perfilam-se à minha frente numa tarde aterradoramente despovoada de uma cidade estrangeira assim não-tão distante. Tal encontro com a força cativante dos enigmáticos objectos inertes poderá igualmente incluir-se num âmbito classificatório pessoal de viagem sentimental. Vazios e sentimentos, despojos de uma mesma coisa.

16.8.09

a cadeira de joseph kosuth

chair (c̸her)<br />noun<br />a piece of furniture for one person to sit on, having a back and, usually, four legs<br />a seat of authority or dignity<br />the position of a player in an instrumental section of a symphony orchestra<br />an important or official position, as a professorship or chairmanship<br />a person who presides over a meeting; chairman address your remarks to the chair<br />sedan chair

O real, a definição do real e a reprodução do real.
Ou seja, uma cadeira e a sua viagem sentimental.

open soon

Deus disse: faz e Eu ajudar-te-ei.
A ver vamos.

das viagens sentimentais

Como o senhor Aghios, da 'Curta Viagem Sentimental' de Italo Svevo, também eu senti que passei de terra-em-terra confrontado com as memórias de outras paragens. Os fotogramas contínuos definidos pela janela da carruagem — mesmo que tão imaginários e sonhados como ela própria — revelaram o percurso das emoções. O que leva a concluir que uma viagem sentimental, curta ou não, tem — mais do qualquer outra coisa — o extraordinário poder da evocação. Nela, nada do que vemos é real pois «evocar» pode não ser mais do que reproduzir uma imaginação. No final de contas, cada um escolhe a sua. Por vezes coincide com a realidade.

24.7.09

Alinho os rolos, a Hasselblad, o par de livros, a muda de roupa. Verifico os documentos, o estojo dos lápis, o caderno de bolso, o bilhete de avião. Novos ciclos começam assim. Com uma partida. Porque a seguir a uma partida há sempre uma chegada. E chegar é começar de novo.

os pontos de vista

Quando o The Times of London publicou imagens sobre as condições dos soldados britânicos na Guerra da Crimeia (1853-1856), que envolveu entre outros os impérios Russo e Otomano, a opinião pública revoltou-se pela crueldade a que eles estavam sujeitos. Segundo o historiador Robert Leggat, foi W. Russell um dos responsáveis por essa exposição, na qual denunciava as fracas instalações médicas e o facto de os soldados não terem sido equipados com uniforme de inverno e estarem aos milhares a morrer de frio. Devido à impressão de horror causada pelo trabalho cru de Russell, o Estado, através do editor do benevolente Illustrated London News, convocou o fotógrafo-estrela da época a registar também a Guerra da Crimeia; mas sob outro ponto de vista. Roger Fenton, de seu nome, era essencialmente um pictórico — de paisagem e retrato temático — fundador da Photographic Society e fotógrafo oficial do British Museum. O seu registo ficou conhecido como um dos primeiros trabalhos de fotografia de guerra, sobrepondo-se em fama ao de Russell, mas a verdade é que esteve sempre muito mais interessado em fotografar a vida social nos acampamentos do que os confrontos (há que ter em conta as insuficiências técnicas da época) ou os resultados destes últimos no campo de batalha. Na sua galeria de imagens vemos poses encenadas de grupos de oficiais, como se continuassem num qualquer clube de cavalheiros na terra-natal em tarde de cricket. Para além das condicionantes da encomenda política, Fenton fê-lo também com um objectivo comercial, pois fotografias grotescas e violentas dificilmente seriam vendidas, na exposição agendada para o seu regresso, à burguesia vitoriana. Através de Fenton, parece que a Guerra da Crimeia foi para os seus intervenientes um cândido passeio no campo, aventuroso como uma tarde de caça. Ou, nas palavras de Gisèle Freund no seu 'Photographie et Societe', uma grande «farra».

Tudo isto por causa da diferença dos chamados pontos de vista.

23.7.09

20.7.09

God says: thou shalt live together on the eleventh day

Conhecemo-nos num sábado à noite, convém lembrar-te, num terraço com vista para o Empire State Building. Vinhas de preto e branco e despertaste o meu interesse ainda de muito longe, quando não eras mais do que uma mancha no meio de todos aqueles desconhecidos. Eras recém-chegada e eu falei-te da América. Nessa mesma noite, depois de deixar-te no táxi e vê-lo subir a Quinta Avenida deserta, regressei a pé à pensão chinesa, abrigo temporário de uma outra crise, para que o momento continuasse ininterruptamente e visse nascer o sol detrás dos edifícios de tijolo do sujo bairro de Chinatown. Eu estava de partida da cidade, lembras-te? Queria regressar de barco, de cargueiro, numa viagem que segundo o que me explicaram demoraria duas a seis semanas. Foi exactamente na mesma tarde em que fui ao porto de Elisabeth Town que perdi o meu telemóvel com o teu número. Dias depois disse-te que afinal ficava, explicando-te o porquê da impossibilidade de partir. Saltaste para o meu colo, em êxtase, numa esquina da Sexta Avenida ao cair da noite. Manifestaste receio pelo facto de nesses dias eu dormir numa espelunca e foi num restaurante nas suas imediações que decidimos seguir a nossa própria e mitómana profecia bíblica, indo viver juntos, ao undécimo dia, para Williamsburg. As semanas correram como flechas, a chuva de Verão chegou à cidade e o meu visto de doze meses ao fim. Fui de viagem ao Canadá sem saber se voltava. Despedimo-nos nessa noite como se fosse a última mas acabei por regressar, desafiando o sistema e a minha própria clandestinidade, resultado de um momento de introspecção. Depois os dias acumularam-se em descobertas a dois e esperas solitárias e quando demos por nós estávamos já em Setembro. Fotografei-te no nosso local favorito ao pôr-do-sol. Tivemos a primeira briga e ofereci-te o primeiro presente. Quando o Obama ganhou, o mundo parou e nós com ele. Brigámos uma segunda vez, fomos ao teatro de táxi e jantámos em casa de uma amiga no Dia das Graças. Chegou Dezembro, os enfeites natalícios e a neve, deixando a cidade como uma paisagem perfeita de um bilhete-postal.

We'll always have New York.

15.7.09

da boa educação

Uma guerra para ser guerra necessita de sangue e suor; de sujidade e despudor; de saque e pilhagem. Na dos Sexos, paradoxalmente, a honradez também está por vezes presente, trazendo algum valor humanístico que produz o afastamento necessário ao fatal primitivismo da nossa espécie; ou em último caso, à barbárie. Se assim não fosse não era guerra, seria apenas massacre.

dos caprichos

Na sua peça 'The Father', ('Fadren', 1887), o neurótico-depressivo Strindberg é peremptório: Love between a man and a woman is war. Tal e qual qualquer outra guerra, a dos Sexos tão-pouco parte de um ponto de vista comum entre os intervenientes mas de uma clivagem. Por território (físico e emocional), poder ou razão. É assim justo dizer que ela não existe verdadeiramente entre homens e mulheres similares; ou se existe, como alguns o fazem passar, então será anódina e insípida; de fachada. Se olharmos para esta nova forma de guerra, criada pela Modernidade e moldada pela burguesia, compreendemos que o impacto entre aqueles que nela intervêm será proporcional ao quão antagónicos eles próprios o forem. Não que o sejam em tudo, porque nunca são, mas convém sê-lo em algo. Assim, podemos dizer que os contrastes, sejam económicos, morais, educacionais — de carácter ou carteira — são fundamentais para esta construção bélica, sobretudo se neles se produzirem dois extremos que de tão distantes acabam, como sabemos, por tocar-se. Desta forma chegamos de novo à frase a Guerra dos Sexos não existe verdadeiramente entre homens e mulheres similares. Correcto. Ela existe, isso sim, entre homens e mulheres cujas diferenças fundamentais são tão contrastantes que nos seus extremos chegam a parecer similares. Mas não o são. Caso contrario não é guerra, é apenas capricho.

Em Strindberg nunca foi guerra.

14.7.09

one given moment

Na delico-doce comédia romântica 'Forget Paris', (1995), Mickey (Billy Crystal) resume mais ou menos assim a sua relação com Ellen (Debra Winger): não estamos bem juntos, mas estamos pior separados. Simples, sincero e aparentemente irresolúvel. Acho que, a um dado momento, acabamos sempre todos por subscrever.

11.7.09

Depois de não sabermos nada dele há uns dias, destacaram-me, na qualidade de seu vizinho, para lhe fazer uma visita a casa e tentar perceber o que se estaria a passar. Aceitei, mesmo sem o conhecer muito bem, e com a morada no post-it amarelo escrito pela zelosa secretária do departamento despedi-me até ao dia seguinte com a promessa de novidades. No metro revia mentalmente a sua rua e situava a casa mais ou menos ao lado do take-away japonês onde às vezes comprava o meu jantar. Quando cheguei à porta vi que não estava enganado por aí além. Era um típico edifício de três andares, em tijolo escuro como quase todos os da vizinhança, cuja única singularidade na fachada era um autocolante em forma de uma metade de um coração, a esquerda, colado no vidro da janela. Nessa metade podia ler-se a frase 'Love is', caída assim incompleta e provocadora na minha própria distracção. Sem pensar no que seria ou deixaria de ser, toquei à campainha, esperei e notei que ao lado, no passeio, a japonesa da caixa registadora do minúsculo restaurante olhava para mim sem particular interesse enquanto fumava um cigarro. Acenei circunspecto. Não me respondeu, tal como tão-pouco o fizeram da porta. Repeti o toque, desta vez mais prolongado, igualmente sem qualquer resultado. Fi-lo ainda uma terceira vez ao mesmo tempo que esboçava um meio sorriso à japonesa desculpando-me talvez um pouco pela minha insistência. Resolvi esperar uns minutos e puxei de um cigarro. Dirigi-me a ela para lhe pedir lume e aproveitei para perguntar se conhecia um indivíduo que vivia naquele prédio e de quem eu estava à procura; um colega de trabalho, acrescentei. Descrevi-o brevemente e pareceu-me pensativa antes da resposta. Que sim, definitely, que costumava vê-lo entrar com a bicicleta e às vezes também lhe comprava algum combinado para levar para casa. Mas se o tinha visto ultimamente? Isso não, achava que não. Agradeci, atravessei a rua e tentei perceber o que se via para dentro do apartamento, no 1º andar. Nenhum movimento, nenhuma luz, e sem contar com o autocolante nenhum vislumbre do que quer que fosse. Nesse instante a japonesa acenou-me freneticamente e voltei a atravessar a rua ao seu encontro. Pelos vistos, depois de terminar a sua pausa comentou com o colega que estava alguém à procura do tipo do lado e o outro disse-lhe que ele se mudara. Mudara, perguntei, como assim? Que tinham visto há uns dias uma carrinha, uns homens a carregarem uns caixotes com ele a controlar tudo e que depois disso nunca mais apareceu. Fiquei a pensar no episódio durante a noite e na manhã seguinte contei a história na copa da empresa ao grupo da véspera. Uns ficaram surpreendidos, outros até insultados. Houve, porém, uma pessoa que ficou verdadeiramente chocada ao ponto de ter de sair repentinamente. No dia seguinte, ao chegar, reparei que a secretária não estava. A meio da tarde precisei de uns elásticos e fui vasculhar a sua prateleira de materiais. Por baixo de uma pilha de papéis azuis reconheço um autocolante em forma de uma metade de um coração, a direita, com as palavras 'the Only Answer'.

Ela apareceu uns dias depois francamente em baixo e notei posteriormente que o autocolante desaparecera da prateleira dos materiais. Nunca mais soube nenhum detalhe desta história. Eu próprio parti passado pouco tempo. Numa noite em que voltei ao take-away reparei que o autocolante da metade esquerda ainda continuava na janela do apartamento. Ao pagar, a japonesa comentou-me que a casa já tinha inquilinos novos. Deixaram o autocolante, disse eu, talvez procurem uma resposta numa outra metade. Ela sorriu, mas não percebeu do que eu estava a falar.

7.7.09

bela lugosi e malgosia bela



Bela Lugosi, o mais conhecido dos vampiros do Grande Ecrã, e a top-model polaca Malgosia Bela, uma provável e francamente apetecível vítima. Para mais uma dentada, evidentemente.

a canção de lisboa

O meu irmão mais novo já andou um ano por Coimbra em Direito e mudou-se depois para Relações Internacionais em Lisboa. Sai à noite, bebe copos, sempre que pode vai com os amigos em viagem e com a responsabilidade própria da sua idade de vez em quando lá estuda. Depois decidiu que afinal queria era Direito outra vez, desta vez em Lisboa, e nós todos que sim, que sim, fazes bem mas faz por isso. Hoje saíram as notas da Prova Nacional de História do Século XX e ao saber a sua é sinal que ele pelos vistos fez. Vinte valores, duzentos certos.

Está de Parabéns, como o Vasquinho Leitão n 'A Canção de Lisboa' (1933) que até sabia o que era o esternocleidomastoideo.

5.7.09

a educação sentimental

Num livro de História esbarro numa transcrição de um documento de 1269 que atesta que nesse ano os burgueses de Coimbra se reuniram não por força nem por engano, mas de sua livre vontade. Foi o mesmo com a sua partida, compreendi: não por força, como insinuou, nem certamente por engano, mas simplesmente de sua livre vontade. Tal e qual os burgueses de Coimbra, poderá um dia contar aos netos.

1.7.09

bar refaeli



Como explicou Choderlos de Laclos em 1783 no seu 'A Educação das Mulheres':
O rosto atrai, mas é o corpo que prende.

cinco dias

Através de um sms, sou informado pela operadora que faltam apenas cinco dias para terminar o contrato do telemóvel. Cinco dias. Cento e vinte horas. Sete mil e duzentos minutos. Nunca um prazo de uma coisa foi tão simbólico para um outro campeonato.

28.6.09

m'sieur

A rua deserta e silenciosa, devido à hora avançada da noite, faz com que o feixe de luz saído da porta que guarda ganhe um protagonismo inesperado e místico, como um pórtico para o desconhecido visto num «série B» dos anos 50. Pode ler-se a um canto da fachada, em pequenas letras de néon encarnado, o nome do bar acompanhado das palavras Strip Club. Noite após noite a sua figura melancólica revela-se encostada ao umbral lacado, impedindo-se assim de tombar sobre si mesma. Com a proximidade dos meus passos a mancha em contraluz vai-se tornando perceptível: uma fisionomia madura, vincada pelas rugas e consequentemente uma expressão absorta e plana; desinteressada. Atrás de si percebe-se um pequeno lobby decorado com espelhos e metais dourados, antecâmara da acção cuja música trespassa remotamente para o exterior. Não há gente, não há movimento; apenas este porteiro nocturno de um local vazio e esquecido. Caminho devagar, silencioso e concentro-me na sua postura. Pela idade aparente já viu muito e de tudo, seguramente. Há algo nele que acusa cansaço. Demasiadas noites, demasiados copos, demasiados maços de tabaco, demasiada solidão. Encostado, olha o chão distraidamente enquanto fuma. Não dá por mim até dois metros da porta, momento em que levanta a cabeça. Cumprimento-o com um aceno e sigo rua fora o caminho de casa, ficando sempre a pensar que tenho unicamente duas opções para enquadrá-lo: como uma personagem solitária do Realismo Poético de Jean Renoir, ou como uma possível projecção do meu próprio futuro. Cauteloso, fico-me somente pela primeira.

a midnight valium for a good night's sleep

Meio adormecido, imaginei que tinham passado vinte anos até voltar a ver-te. O momento do suposto reencontro perturbou-me. Não por estares mais velha — nem isso parecias estar — e reflectires assim o meu próprio envelhecimento, mas por ver que tinham passado vinte anos sem ti. Vinte anos em que a vida me tinha privado de algum sentido dado pela ilusão —o pouco que como mortais nos resta— daquilo que comummente conhecemos como «estabilidade». Agora, desperto e lúcido, compreendo: afinal não foi um sonho pois tu desististe, desapareceste e já não estás; afinal «estabilidade» é coisa que tão-pouco existe. Ou se sim, nunca a longo-prazo.

23.6.09

das mulheres de trinta

São interessantes as afinidades entre Maria, de 'Play it as it Lays' de Joan Didion, e Marta, de 'Transa Atlântica' de Mónica Marques. Embora personagens pertencentes a universos distintos — geográficos, geracionais, culturais — as narrativas apanham ambas numa mesma faixa etária: a casa dos 30. Nesse específico período etático de uma mulher, que vai do golpe de misericórdia final na inocência ao primeiro vislumbre da crueldade do envelhecimento, a maioria já amou, deixou, sofreu, fodeu ou gritou. Umas, muito de tudo; outras, um pouco mais do que nada. Algumas foram ainda mães, sozinhas pelo caminho, sobretudo, ou muitas vezes nele tão mal acompanhadas. 'Maria' e 'Marta', cada uma à sua maneira, possuem gravado o código sentimental de um percurso universal e contemporâneo; feminino.

A uma aparente independência de costumes & vícios, legado da Modernidade, subsiste da mesma forma uma prisão consequente da imutabilidade da condição humana: a necessidade de afecto. Há também memórias — há sempre memórias — que despoletam no Presente receios e confusões; ou erros e omissões. As mulheres de trinta já sabem o que querem e muitas vezes também já o tiveram para consequentemente o perderem. Ou assim o crêem. Por culpa de incertezas, suas e de outrem, de abandonos, de desinteresses ou até das sogras, como algumas o fazem notar.

Em resumo e apesar de tudo, as mulheres de 30 ainda acreditam. Mas só mais uma vez.

16.6.09



Charlotte Rampling —como Jacqueline Bisset, Jessica Lange, Angie Dickinson, Sophia Loren e muitas outras— é a prova de que uma mulher pode ser atractiva e desejável em quase todas as fases da sua vida. De barely legal a housewife, de milf a mature.

a blogosfera amputada

O Estado Civil terminou no princípio deste ano. Como de certa forma a ele se deveu o meu interesse em entrar e mais tarde em participar na blogosfera, pelo seu exemplo de conduta e pela atracção dos seus conteúdos intimistas e reflectivos, isto faz com que em parte me sinta uma estranha espécie de órfão. Sem o Estado Civil —que é o mesmo que dizer sem o Pedro Mexia— o quotidiano da blogosfera já não poderia ser o que foi: numa assentada perdeu esprit & reflexão. Mas embora «órfãos» somos igualmente «adultos» e mentalizamo-nos assim a viver com isso. Como um ferido de guerra vítima de uma amputação.

somehow still related with 'lust'

Quando descobri o trabalho fotográfico de Dash Snow, o enfant-terrible da underground-art nova-iorquina, numa livraria de esquina da Village, balizei-o num campo conceptual entre a exploração de uma familiaridade trágica e marginal, de Nan Goldin, a exposição sexual fria e provocadora de Terry Richardson e o registo da decadência física (e moral) de Boris Mikhailov. Por essa altura os trabalhos fotográficos do (depois) cineasta Larry Clark — 'Tulsa' e 'Teenage Lust' — ainda me eram desconhecidos. Quando deixaram de o ser, notei que são esses mesmos a maior influência de fundo no body-of-work de Snow. O que demonstra que já nem na irreverência há muita originalidade.

15.6.09

mature lust

Charlotte Rampling, por Juergen Teller

average lust

You wanna know something?
You're not in love. You're in lust.

Fox (Christopher Walken) para X (Willem Dafoe) quando este último lhe diz que vai fugir com Sandii (Asia Argento) por estar apaixonado por ela. Há muita verdade, naquela simples contra-resposta de Fox. Em 'New Rose Hotel' (1998), de Abel Ferrara. Para prevenir muito boa gente de futuras confusões.

teenage lust

Pelo facto de há alguns dias atrás ter feito outra alusão à obra do algo andrógino (no estilo) Bret Easton Ellis, acrescento agora que se há imagens que ilustram de uma forma precisa o contexto psico-social do seu 'Less than Zero', (1987), essas serão seguramente as do já por aqui comentado álbum 'Teenage Lust', de Larry Clark. Como se nao bastasse 'Less than Zero' ser também sobre uma certa luxúria na adolescência —uma realidade física— há uma outra realidade —podemos chamar-lhe moral— que enfatiza a co-relação entre as duas obras. A fotografia 'They met a girl on acid in Bryant Park at 6 am and took her home to fuck her', de Clark, é disso um bom exemplo. Não pelo sexo explícito ou a aparente violência do gangbang involuntário nela contido, mas pela utilização do corpo de outrem para um interesse pessoal e unilateral, descartável e instantâneo. Como no livro de Ellis, uns (corpos) servem a outros apenas nessa perspectiva.

12.6.09

la génération perdue

A Lost Generation e os seus estilhaços têm hoje um espectro mais alargado do que o inicialmente literário nas sucessivas correntes conceptuais. Surge agora como um movimento elíptico sentido novamente na vida e no corpo, longe do asilo teórico das páginas impressas, cujos autores demonstram uma estranha e incómoda actualidade. Não somos assim os filhos de uma geração perdida, legado abstracto de outros anteriores a nós, mas uma nova geração perdida. Também percorremos o mundo e da mesma forma nos decepcionamos. A festa é a máscara que disfarça a desilusão.

8.6.09

duas fotos para Didion



A primeira, de Philip-Lorca diCorcia, e 'Sunset Strip', de Ed Ruscha, (do livro 'Every Building on the Sunset Strip', 1966).

learning from las vegas

All day, most of every night, she walked and she drove. Two or three times a day she walked in and out of all the hotels in the Strip and several downtown. She began to crave the physical flash of walking in and out of places, the temperature shock, the hot wind blowing outside, the heavy frigid air inside. She tought about nothing. Her mind was a blank tape [...]. When she finally lay down nights in the purple room she would play back the day's tape, a girl singing into a microphone and a fat man dropping a glass, cards fanned on a table and a dealer's rake in closeup and a woman in slacks crying and the opaque blue eyes of the guard at some baccarat table. A child in the harsh light of a crosswalk on the Strip.

in 'Play it as it Lays', (1970), de Joan Didion, pag. 170.

4.6.09

ainda de 'play it as it lays'

O que me pareceu mais curioso nesta obra de Didion foi a aproximação a dois autores por aqui particularmente estimados: C. Bukowski e Raymond Carver, ambos seus contemporâneos. Porém, esta aproximação não é suficiente para inserir Didion no Dirty Realism que caracteriza os outros dois. Por um lado, não é crua e despojada como Bukowski; e por outro, ao contrário das personagens de Carver, Maria é dotada de um impulso de sobrevivência. Como aqui escrevi, em Carver não há luta ou heroísmos estóicos, há apenas conformismo. Com Maria (ou em Didion) há muito mais do que isso.

de 'play it as it lays'

Embora inicialmente tenha sido mais receptivo a alguma influência de 'Play it as it Lays' (1970) nas gerações posteriores (leia-se em Bret Easton Ellis) do que àquelas a que Joan Didion esteve sujeita, vejo agora, quase completada a leitura, que são as últimas as mais marcantes. Mas não só. Na construção do mundo envolvente da sua personagem principal —Maria ("that is pronounced Mar-eye-ah")— estão presentes os resquícios da catarse colectiva da Lost Generation: uma certa desacreditação moral aliada à perda da Fé do legado judaico-cristão. A vulnerabilidade emocional da protagonista nasce (em parte) desta consciência intrínseca de que a batalha estará sempre perdida. Mas se esta influência é sentida apenas nas entrelinhas, mais notória e visível é uma outra que guardo ainda como uma referência maior da ficção norte-americana do pós-guerra: 'The Deer Park' (1955) de Norman Mailer. São múltiplos os fragmentos visuais de 'Play it as it Lays' que remontam para os cenários do romance de Mailer. O social, para começar, no qual as personagens se movimentam igualmente no pouco escrupuloso meio da movie industrie. Mas igualmente o paisagístico que contrapõe a aridez do deserto à metrópole urbana, complexa e dispersa. Tal como em Mailer, também este contexto físico funciona como uma analogia às questões sentimentais e afectivas.
John Wayne em 'Hondo'

O homem, a máquina e a estrada.
Novo tríptico visual de uma velha solidão.

learning from los angeles

Quando os grandes planos urbanísticos da West Coast norte-americana começaram a ser desenvolvidos em prol dos automóveis e da sua extraordinária capacidade de vencer novas distâncias, estes últimos elevaram-se a anónimos protagonistas do quotidiano. É por isto interessante encontrá-los nessa mesma condição de imprescindíveis e paradoxalmente invisíveis em terrenos como os da Literatura e do Cinema. Também a relação das pessoas com a própria solidão foi por eles alterada, acentuando o conceito de deriva urbana. Em 'Play it as it Lays', que remonta ao período de uma odisseia pessoal de uma mulher interrompida por flashbacks, a presença do automóvel, embora muito subtil, é sentida exactamente nestes termos. Sendo máquinas e por isso banais e desprezíveis, são ao mesmo tempo cápsulas de refúgio, espera, decisão, fuga, ou esquecimento. Acima de tudo, conferimos-lhes inconscientemente uma estranha e familiar camaradagem. Como nos tempos dos westerns se via acontecer com os cavalos.

os dias da máquina

proporcionam a reciclagem de uma conhecida litania católica:
O Carro esteja convosco. Ele está no meio de nós.

1.6.09

o seu duplo perene

first impressions

Em 'Play it as it Lays' (1970), da norte-americana Joan Didion (1934), encontramos traços específicos de uma geração literária amargurada, política e emocionalmente, e em permanente estado de introspecção e auto-avaliação. No entanto, numa primeira impressão, não recolho as suas influências, como a Lost Generation, ou contemporaneidades, como o (à altura) recém-formado New Journalism. Recolho, isso sim, algo que poderíamos classificar como aquilo que virá a ser o seu legado; ou, porque não, a sua própria influência a terceiros. Neste caso concreto, podemos ver 'Play it as it Lays' como uma incursão preparatória ao terreno de Bret Easton Ellis uma década depois. Ou seja, muitas cabecinhas descompensadas num plateau social da West Coast de Sex, drugs and fuck'em all.

the coke bottle

"Let's fuck", the actor said from the doorway.
"You mean right here."
"Not here, in the bed." He seemed annoyed.
She shook her head.
"Then do it here," he said. "Do it with the Coke bottle."

'Play it as it Lays', (1970), de Joan Didion.

26.5.09

la comédie humaine



Fotografia de Wayne Liu, outra vez, que ao juntar a multidão, os gritos e uma pulseira com um coração ao gesto universal do cornudo consegue assim, de uma forma figurativa, resumir simbolicamente em apenas uma imagem toda a obra literária de Balzac. Um requintado pós-realista, este sino-americano.

das Penélopes

Ulisses, vinte anos depois, regressou à sua.
Bardem, em menos tempo do que isso, também.

25.5.09

made in alcobendas

Comprei há uns dias um serrote para madeira e enquanto estava ontem a fazer uma coisa armado em carpinteiro dei conta do Made in Alcobendas, Spain gravado na lâmina brilhante. Para além de produtora de ferramentas para a mui ancestral, doméstica e masculina arte da bricolagem, esta pequena localidade é também conhecida como a terra-natal das (aqui sobretudo) hiper-sensuais Penélope e Mónica Cruz. Como diz o slogan camarário: Alcobendas, un modelo de ciudad. Concordamos, evidentemente.

21.5.09

esplendor na relva

Nos anos anteriores à minha partida para o estrangeiro, a Cinemateca, mesmo durante os largos meses em que por motivo de obras as projecções eram no Palácio Foz nos Restauradores, era já um dos meus locais de eleição. Guardo inclusive, e religiosamente, os papéis-craft da programação de Janeiro de 2001 a 2006, que por volta do ano 2002 sofreram uma ligeira alteração no design gráfico. Para melhor, pareceu-me. Guardo todos os meses, salvo um; por causa de uma antiga namorada que o rasgou na Avenida de Roma em frente ao Frutalmeidas. De todos estes anos, para além de filmes e ciclos, também me recordo dos textos fotocopiados que acompanhavam as projecções. Textos construídos em volta de uma paixão pelo medium; histórica e conceptual. Textos que me ajudaram a ver o então invisível, a compreender o (muitas vezes) incompreensível. Textos que elevavam os detalhes, os pequenos-nadas e revelavam aquilo que aprendi a procurar e respeitar como a outra face do cinema. Textos de João Bénard da Costa.

Quando há pouco conversava com o meu Pai sobre a morte de JBC compreendi verdadeiramente a dimensão do seu alcance pedagógico intergeracional. Foi seu professor no Conservatório de Lisboa nos anos 1970, fiquei a saber. De História da Cultura, acrescentou.

Pelos seus textos, foi meu também. Trinta anos depois.

no tempo do cinema

Documentario de José Carlos Santos sobre a vida de João Bénard da Costa.
Hoje, dia da sua morte, na 2.

a midnight valium for a good night's sleep

Quando o descobri, soube que já o conhecia sem nunca o ter visto. Nos manuais de arte contemporânea, ainda adolescente, ou ao vivo no museu, já adulto. Muito antes daquela tarde em que fugimos do calor apocalíptico da Fith Ave e nos refugiámos no ar fresco dos mármores do Met. Lá estava ele à nossa frente, como eu o esperava, outra vez só para mim — só para nós — na hora-morta do museu em dia de purgatório urbano. A arcada e a praça-amarela, o abandono, o estio. Tudo antes de ti e ali; tudo muito atrás na minha infância. A Biblioteca Municipal e o terrain-vague deserto entre mim e ela; cem passos de solidão, cem passos de criança. Lá dentro o Nils Olgersson e a sua viagem de ganso pela Suécia. Ou as histórias de Grischka e do urso, de René Guillot, num remoto e exótico cenário de esquimós e neve, ambos tão distantes da minha breve realidade. As paredes altas revestidas de velhas edições. O ar fresco, o cheiro a papel, a forte luz exterior. O silêncio. Sentado numa cadeira sem que os pés tocassem no chão e esperar, como em todos os dias daquele princípio de Verão, que chegassem as seis da tarde. É isto que para mim é Chirico. Nostalgia. Muito antes de ti.

17.5.09

desperate housewife

'Intentions of Murder', de Shohei Imamura

Em 'Intenção de Matar', (ou 'Akai Satsui', 1964), Shohei Imamura debruça-se sobre a história de Sadako, uma mulher de meia-idade e sem encantos, casada, enganada, mãe e dona-de-casa que é violada durante uma ausência do marido e do filho. Sadako estranhamente encontra no violador uma ruptura com a apatia da sua vida e cria uma relação de assiduidade e continuidade com ele, procurando posteriormente matá-lo como um acto (mais psicológico do que físico) libertador. Logo à partida, não encontramos neste filme de Imamura mais do que laivos da sua máxima por aqui transcrita há uns tempos relativa ao seu interesse "na relação da parte inferior do corpo com a parte inferior da estrutura social". Depois compreendemos que, no seu todo e bem lá no fundo, é claramente (e muito) isso mesmo.

seven knots

Desde aqueles dias de Verão e de Inferno na Upper New York Bay, onde o Hudson e o East River convergem ladeados pelas Ellis e Governors Islands, que, por circunstâncias da vida —e são sempre muitas as circunstâncias da vida— não tinha voltado ao leme de um veleiro. Foi por isso muito bom voltar a fazê-lo ontem, dia em que a brisa ajudou a buscar a adrenalina desses outros tempos e a despertar assim a lembrança de uma relação única traduzida por um não-tão original quadrinómio: homem, barco, vento e água.

14.5.09

the aesthetics of reality, take 2

Ontem, numa rua perpendicular à do meu estúdio, deparei-me com uma cena interessante. Uma moto de grande cilindrada enfiada debaixo de um carro-patrulha e um aparato policial que metia respeito. O que se passou, perguntei a um popular na esquina. Foram uns ladrões, respondeu, foram uns ladrões que roubaram uma joalharia e na fuga espetaram-se contra o carro da polícia. Apanharam-nos todos, concluiu radiante. A estética da realidade, dizia eu. Aqui um bom exemplo num sentido diferente.

the aesthetics of reality

Andar constante e inconscientemente a equilibrar na minha cabeça o color balance de quase tudo o que toco —da salada de frutas ao dentífrico— quer dizer apenas duas coisas: 1) demasiadas horas agarrado ao photoshop; e 2) demasiadas horas agarrado ao photoshop. Ou então quer apenas dizer que a chamada estética da realidade poderia ser muito melhor do que aquilo que é.

de yoshishige yoshida

É já com alguma dificuldade que consigo escrever Yoshishige, o primeiro nome do realizador japonês. Depois fui mais longe e tentei dizê-lo. Não me saiu nem à segunda.

ainda de 'as termas de akitsu'



Toichiro Narushima, o director de fotografia, conseguiu em 'Akitsu Onsen' (1962) o mesmo que Yoshio Miyajima conseguiu na Parte I da 'Condição Humana' (1959) de Masaki Kobayashi: a paisagem é claramente a terceira personagem. E este fotograma não ilustra nem metade daquilo que estou a dizer.

as termas de akitsu



De 'As Termas de Akitsu' (Akitsu Onsen, 1962), de Yoshishige Yoshida, podemos dizer que é sobretudo um drama romântico. No final da guerra, Shinko, ainda adolescente, conhece um militar tuberculoso e torna-se a sua enfermeira. Eventualmente ele cura-se e entretanto apaixonam-se; mais tarde ele parte, abandonando-a. O seu regresso às termas de Akitsu e a Shinko é esporádico e conturbado nos 17 anos seguintes. A história culmina numa poderosa cena dramática do suicídio de Shinko, já uma mulher madura, perante o desespero de um homem que em tantos anos nunca soube o que quis.

É-me difícil encaixar 'Akitsu Onsen' no contexto da Nova Vaga Japonesa. O ambiente de pós-guerra e de múltiplas mutações sociais torna-se quase supérfluo à narrativa. Pouco interessa e nada é explorado. O que parece realmente interessar a Yoshida é a história de amor numa esfera de tranquilidade burguesa; a mutilação sentimental e o sofrimento pela desilusão. Uma luta a dois; de caracteres e de força interior. Em nenhum momento se sente uma incursão a temas como a violência física gratuita, o sexo mecanizado, a reivindicação política ou a personagens de uma marginalidade social. Talvez por isto sinta que 'Akitsu Onsen' pertence menos a uma nova vaga do que à anterior (e paralela) escola clássica, dramática e humanista do cinema japonês. O que não invalida ser um grande filme.

11.5.09

those ghostly traces, photographs

Copyright Wayne Liu

A fotografia é do sino-americano Wayne Liu mas pelo ângulo em relação à figura feminina, a pose desta e até o contexto urbano bem poderia ser um fotograma de Naruse.
Se Naruse tivesse filmado nos anos 80 e fosse chinês.

10.5.09

about jogging

Eu sou David. Golias é a preguiça que há em mim.

da arte e do sentido (2)

Sou do género de gajo que quando tem tv —embora quase nunca tenha tv— guarda a merda do telecomando sempre no mesmo sítio. Ou seja, sou por isso um estruturalista inveterado. E isso faz muito sentido.

9.5.09

da arte e do sentido

Quando me perguntaram sobre as minhas preferências na Arte Contemporânea portuguesa não tive grandes dúvidas —embora aprecie igualmente outros, naturalmente— em apontar três nomes para três novas gerações: José Pedro Croft (1957); Gil Heitor Cortesão (1967); e Manuel Caeiro (1975). Focando-nos nas obras dos três artistas, podemos dizer que a preferência faz todo o sentido, se é que preferências têm de fazer sentido. Do construtivismo mais abstracto de Croft ao racionalismo figurativo de Caeiro e passando pela memória modernista de Heitor Cortesão, a arquitectura, ou referências (por vezes) remotamente ligadas à arquitectura, são, a par de estilizadas contextualizações espaciais, elementos comuns a todos os trabalhos. A preferência faz assim todo o sentido, mais uma vez, se é que tem de fazer sentido. Mas é quem me conhece que diz que faz mesmo todo o sentido.

7.5.09

those ghostly traces, photographs



É extraordinário o poder das imagens na cultura urbana. Não há quem olhe para esta foto e não anteveja a tragédia das quatro personagens. O disparo a longa distância, a cabeça a abrir-se em duas partes pelo impacto do projéctil, os consequentes gritos. Por isso todos estes sorrisos ganham aqui uma outra dimensão. É esta a fragilidade da condição humana. Uma grande merda, mas é o que é.

some people have analysis; I have Utah

Conheci uma pessoa que também dizia isto. Exactamente o mesmo, descubro agora, que disse o Robert Redford há muitos anos atrás. A fuga para o campo; ou a chamada contra-terapia pós-moderna.

a arte da fuga

Alguém que lê este blogue e ao denotar, por um lado, o marasmo dos últimos dias, por outro a obsessão temática, espirituosamente pergunta-se (e a mim também) se não terei —e trancrevo— fugido com a Emmanuelle? Ainda há bom humor em tempos de crise.

4.5.09

Emmanuelle; definitivamente com maiúscula

A busca de imagens para «Emmanuelle» é bastante interessante. Aparece a Seigner, a Béart e a Vaugier. Só por isto, o nome inteiro deveria ser em maiúsculas.

30.4.09



Depois de ver atentamente a composição estética da cena da loira violada pelas três chinesas de cabelo preto e vestidos encarnados — ou a cena da casa de massagens com três chinesas nuas com os corpos cheios de óleo — não tenho quaisquer dúvidas que Francis Giacobetti, o realizador, conhecia o 'Sing a Song Sex', (1968), do mestre da nova-vaga japonesa Nagisa Oshima. É que isto de filmar fetiches, como se compreende, não se aprende assim do pé para a mão.

Emmanuelle; com maiúscula (3)

'Emmanuelle, L' Antivierge (2)' (1977) acompanha a viagem de barco de uma mulher, Emmanuelle, até à Ásia para juntar-se ao marido, um engenheiro destacado em Hong-Kong. Sendo um filme de época, podemos dizer que o casal é moderno, o que significa que cada um vai com quem bem lhe aprouver. No entanto, as aventuras individuais são relatadas e partilhadas, servindo posteriormente de excitante mental e carburador físico aos dois; ou três, ou quatro. Ciúmes e encornanços são coisas de gente mesquinha e popularucha. Liberais com estilo são como a aristocracia de Laclos: têm muita largesse.

Emmanuelle; com maiúscula (2)

Dos diálogos do filme 'Emmanuelle 2' podemos dizer o mesmo que dos do 'Emmanuelle 1': são ao mesmo tempo uma merda e muito bons. Uma merda porque são meio pirosos; muito bons porque são em francês. E em francês uma mulher também dá sempre muito tesão.

Emmanuelle; com maiúscula

Os títulos começam com 'Io, Emmanuelle', de 1969, e no ano 2004 ainda há vestígios da libertina francesa pelo mundo do erotismo cinematográfico. Já foi branca (quase sempre), preta (1976), asiática (1977), sedutora (1978) e a rainha de Sados (1979). Esteve em África (1976), Cannes (1985), Veneza (1993), Rio de Janeiro (2003) e também no Inferno (1982), de onde escapou no ano seguinte como ilustra o empolado título 'Emmanuelle Escapes from Hell'. Em 2000 estava no Paraíso e curiosamente nesse mesmo ano chegou a ir ao espaço. Nos cerca de 60 títulos, que incluem episódios TV, foram várias as mulheres que encarnaram Emmanuelle. Quanto a mim, só vi dois com a holandesa Sylvia Kristal. O que, acrescento, com outras interpretações de mulheres como Erika Blanc ou Laura Gemser me parece uma verdadeira lástima.
Enfim, não se pode ir a todas.

27.4.09

those ghostly traces, photographs



Na manhã de 8 de Junho de 1968 o corpo de Robert Kennedy era transportado de Nova Iorque para Washington de comboio. Centenas de milhares de pessoas alinharam-se ao longo da linha de caminho-de-ferro para prestar uma última homenagem a Bobby. A bordo ia o fotógrafo Paul Fusco (1930), que registou o trajecto num conjunto de fotografias que deu origem, o ano passado, ao livro 'RFK'. Percorrendo as suas páginas somos confrontados com o luto de uma nação, mas da mesma forma com um retrato dos seus grupos sociais. Período de grande mudança nos direitos humanos na América — passados apenas quatro anos do Civil Rights Act de 1964 — a comunidade negra tinha em Bob Kennedy um empenhado aliado pela igualdade e contra a segregação racial. Chamavam-lhe 'Blue Eyes, Soul Brother' e mais do que qualquer outra chorou fortemente a sua morte. No livro, sente-se isso muito bem.

25.4.09

that can (and will) be used against you

Numa relação, vírgula, sentimental, há que ter tento na língua quanto à manifestação de impressões pessoais. Seja na forma de um reparo sincero ou de uma provocação pueril, de uma confidência passada ou de um desejo para o porvir, tudo o que se diz fica gravado na memória de quem escuta. Os dias passam e estas impressões pessoais — umas verdadeiras e sentidas, outras insignificantes — tornam-se numa espécie de lascas subcutâneas emocionais. Não se vêem, mas continuam à espera de sair sob pressão. Quando tal acontece, geralmente numa discussão, rasgam a pele e saltam para a conversa num tom quase sempre descontextualizado, quase sempre cruel e definitivamente sempre chantagista. Para evitar o desconforto, ou a injustiça, talvez seja prudente seguir desde o início o conselho do conhecido 'Miranda Warning': you have the right to remain silent. Anything you say can and will be used against you in a court of law.

24.4.09

a geração de 70

Quando o dogmático conceito dos chamados objectivos de vida começa a fazer sentido é sinal de que está tudo perdido. É sinal de que a melancólica satisfação da burguesia se instalou dentro da alma. E com ela a apatia criativa e aventurosa que reduz os homens a espirituosos & eloquentes vegetais.

23.4.09

the lower part

Nuberu bagu, ou a Nouvelle-Vague japonesa, como todas as novas vagas revolucionou e questionou o medium. Técnica e conceptualmente. A par de Oshima e Suzuki, os que conheço melhor, há um outro nome que me desperta um particular interesse no meio de todos os outros: Shohei Imamura. Treinado na escola do drama burguês (e maioritariamente feminino) de Ozu —do qual foi aprendiz— e numa estética de câmara minimalista e equilibrada, Imamura rompeu com os seus pressupostos iniciais interessando-se pelo bas-fond de Tóquio e Osaka e pelas suas personagens de putas, proxenetas e pornógrafos. Os seus filmes são sujos e provocadores. Resta dizer que um homem que afirmou estar interessado "na relação da parte inferior do corpo com a parte inferior da estrutura social" só podia mesmo ter toda a minha simpatia.

17.4.09

a magna magnani



Mas seu, o meu preferido continua a ser 'Mamma Roma'.

da verdadeira essência

'Bellissima' (1951), terceira longa-metragem de Luchino Visconti, é amplamente inserida no Neo-realismo Italiano. De facto, não há dúvidas de que a sua realização se insere no período final da identidade neo-realista mas, à partida, esta obra de Visconti diverge da corrente pelo carácter satírico e humorístico. O neo-realismo habituou-nos a um estilo documental que expõe cruamente a realidade social do pós-guerra. Fá-lo em diversos planos, que vão da denúncia da miséria à reconstrução/transformação física da cidade, e onde a carga dramática é (quase) sempre directa e despojada de artifícios. Em 'Bellissima' também se encontram elementos do neo-realismo, vero, contudo existe paralelamente um filtro atenuante dado pelo tom de comédia que a separa do estilo purista e documental. No entanto este tom, vamos compreendendo no desenvolvimento, alivia uma intensidade melodramática. Entre risos, Visconti apresenta-nos um mundo grotesco.

Mark Shiel, no seu 'Italian Neorealism, Rebuilding a Cinematic City', reconhece em 'Bellissima' (pag. 93) marcas do neo-realismo, embora o seu registo de light-hearted comedy (palavras suas) a afaste da obra (anterior) geralmente politizada de Visconti. Por conseguinte, pode subentender-se, será menos relevante para a identidade da corrente. Inicialmente tive a mesma impressão que Shiel. Porém, no desenrolar do filme, o realismo das discussões reles e grosseiras e das suas personagens fez-me mudar de opinião. O suficiente para dizer agora que estar privado de 'Bellissima' significa estar privado, num contexto vernáculo e humanista, da verdadeira essência do neo-realismo italiano.

15.4.09

ainda há piratas



Robert Louis Stevenson agradeceria.

na sua maioria

Transcendentalmente, o Acaso é universal e omnipresente; tal e qual Deus, dirá Santo Agostinho. Acções e consequências advêm dele. Como conceito abstracto e metafísico, o Absurdo, em parte efeito do Acaso, é mais inspirador e extraordinário. Todos estamos à mercê de uma perpétua casualidade, ou dos tais actos inesperados que produzem mudanças — como em Bresson por exemplo — mas esta casualidade raramente é absurda — como o é em Camus ou até em Paul Bowles (veja-se 'A Distant Episode'). O resultado do Acaso é por isso mesmo, na sua maioria, nada mais do que banal e ordinário. Como as próprias vidas; ou a grande parte delas.

14.4.09

remember, thou art only a man (2)

Realmente na Glória, essa volátil, breve e perigosa partida do destino, convém não esquecer que somos apenas homens. Mas no Fracasso tão pouco convém esquecer que por ele acontecer não deixamos de o ser. Ao fim e ao cabo, o único que não perde é Deus.

remember, thou art only a man

No épico 'Quo Vadis' (1951), de Mervyn LeRoy, o general Marcus Vinicius regressa vitorioso das campanhas no estrangeiro e entra em Roma triunfante diante de Nero e da multidão. Atrás de si, na mesma quadriga, um homem segura-lhe a coroa de louros em ouro acima da cabeça. E de tempos em tempos, no meio do êxtase do Povo, recorda monocordicamente a Vinicius: lembrai-vos, sois apenas um homem.

9.4.09

a golpada

Paul Newman e Robert Redford em 'A Golpada', (1973) de George Roy Hill

Telefonei agora para a Ordem e colocaram-me em espera enquanto transferiam a chamada para outro departamento. Ao mesmo tempo deram-me música de cortesia para me distrair. Apurei o ouvido e reconheci uma versão estilizada da banda sonora d'A Golpada', o thriller de intrujões-mor de George Hill. Pergunto-me o que poderá isto significar.

concentrado

Ao ver na Segunda-feira à noite o concerto da italiana Patrizia Laquidara no Cabaret Maxime não pude deixar de lembrar-me das palavras do meu padrasto, há mais de vinte anos, sobre a Lena d'Água quando a Lena d'Água cantava assim. É pequenina, mas canta muito boa.

6.4.09

de Laclos



Um. Dá conselhos às mulheres do mundo; no ano de 1783:
Receai igualmente o uso das bebidas espirituosas; uma pele lisa não esconde um sangue ardente; deixai às mulheres com poucos recursos este débil meio de incitar, pelo seu exemplo, a este género de deboche, na esperança de aproveitar os desejos que se lhe seguem e que elas não teriam sido capazes de suscitar. (pag. 125). [...] Não vos deixeis jamais dominar pelo mau humor. (pag. 126). [...] O rosto atrai, mas é o corpo que prende. (pag. 128).

Dois. Obviamente, leu Rousseau:
A natureza só cria seres livres; a sociedade só faz tiranos e escravos. Uma sociedade pressupõe um contrato; todo o contrato uma obrigação recíproca. Toda a obrigação constitui um entrave que contraria a liberdade natural; assim, o homem social agita-se continuamente nos fios que o prendem [...]. (pag. 99).

Três. Já tinha ouvido falar de Padma Lakshmi:
A acreditar nos relatos dos viajantes, as bailarinas do Industão sabem dar ao seu olhar, utilizando um pó, a expressão do prazer, mantendo nos olhos as lágrimas ardentes que a voluptuosidade faz verter. (pag. 130).

Transcrições em itálico de 'Da Educação das Mulheres', ensaio de Choderlos de Laclos.
Versão Portuguesa Edições Antígona; tradução de Luís Leitão.

5.4.09

das mulheres de choderlos de laclos

Falando de manifestos da emancipação feminina pela mão de homens não podemos deixar de lembrar Choderlos de Laclos. O escritor francês, autor do conhecido puzzle libertino 'As Ligações Perigosas', produziu no ano 1783 um ensaio (e antes disso um breve discurso) sobre a educação das mulheres. Tamanha teorização deveu-se ao facto de a Academia de Chalons-sur-Marne ter lançado um concurso, reflectindo o zeitgeist Iluminista, que questionava os intelectuais sobre "quais os melhores meios de aperfeiçoar a educação das mulheres?". Laclos, homem de armas e de letras, respondeu.

Primeiramente, no discurso, afirma suportado pelo seu silogismo 'onde existe escravatura não pode haver educação: em todas as sociedades as mulheres são escravas; portanto, a mulher social não é susceptível de educação' que não há assim nenhum meio de aperfeiçoar a educação das mulheres. Ou seja, tal não será possível enquanto a mulher estiver subjugada ao poder masculino. Por isso mesmo apela para que não se deixem "iludir por promessas enganadoras ou o socorro dos homens", pois, da parte destes, não há verdadeiramente qualquer intenção de transformação. Laclos foi peremptório: só se escapa à escravatura com uma grande revolução.

Meses mais tarde retoma o assunto do discurso e escreve o ensaio "Das Mulheres e da sua Educação", no qual contrapõe, numa influência nostálgica e rousseauniana, as vantagens da «mulher natural» perante a «mulher social». A liberdade, o poder e a felicidade foram retirados às mulheres pela Sociedade, pois os "homens pretenderam tudo aperfeiçoar e tudo corromperam". Mas Laclos não deixa de ser uma vítima dos seus tempos. No último capítulo, dissertando sobre beleza e conduta femininas, remete a mulher para uma esfera familiar e privada, acentuando acima de tudo e contraditoriamente o seu papel de objecto.

No final, o que conta é a intenção. Laclos pelo menos tentou.

3.4.09

das mulheres de naruse



Ao deparar-me com este fotograma de um filme de Mikio Naruse noto o quanto ele pode ser sinóptico da sua obra. O universo do cineasta japonês tem como núcleo de gravidade a figura feminina. E aqui, vendo-a sozinha num local íngreme e algo claustrofóbico, relacionamos a espacialidade como uma metáfora para outras realidades por si exploradas: emocional e social. O mundo das heroínas de Naruse, como o de todas as outras, não é fácil. Movimentam-se entre uma certa rigidez cultural e o desejo de mudança numa sociedade que carrega o trauma do pós-guerra. Os homens que as rodeiam são na sua maioria figuras moralmente fracas e derrotadas, despojos de uma guerra perdida, mas que não deixam de exercer a tradicional influência da «superioridade masculina». Naruse opõe-se ao lugar comum e as suas mulheres reagem, reivindicam, lutam. Procuram a independência aliada a uma contemporaneidade de costumes, mais justa e imparcial. Os homens bons são os que compreendem e facilitam esta liberdade e justiça. O cinema de Naruse pode assim ser visto como um manifesto da emancipação feminina; não de uma forma violenta ou ruidosa, mas sim discreta, sentimental e romântica. No fundo, no Japão do pós-guerra ou nos dias de hoje, continua a existir uma actualidade nas suas personagens de uma classe média universal. As heroínas de Naruse não deixam de ser em alguns pontos muitas das mulheres do século XXI. Talvez por isso ele seja tão apreciado pelo sexo feminino.

do cabedal (2)

Em 'Relâmpago' (1952), de Mikio Naruse, a mãe de Kyoko é uma senhora de sessenta anos com quatro filhos. Um de cada marido. Isso também é «cabedal».

do cabedal

Muito se comenta o cabedal do Clint Eastwood. Naturalmente que o senhor com 1,88m e quase octogenário tem uma constituição física impressionante, mas vejamos as coisas ainda de outro ponto de vista. Sete filhos de cinco mulheres diferentes e a actual, Dina Ruiz, é trinta e cinco anos mais nova. Isto sim, é verdadeiramente «cabedal».

31.3.09

ken e gata

ken Ogata em 'The Vengeance is Mine' (1979), de Shohei Imamura

men under the influence (5)

Na onstage conversation antes da projecção de 'Mishima: A Life in Four Chapters', no Film Forum, Paul Schrader explicava a escolha do actor Ken Ogata para representar o papel do irreverente autor japonês. Ken Ogata, dizia ele, criou através daquele filme do Imamura —não me recordo do nome— uma screen persona ligada à violência. 'Vengeance is Mine', gritou alguém do público. Sim, respondeu Schrader, esse mesmo.

30.3.09

men under the influence (4)

A passagem bíblica 'Minha é a vingança; eu retribuirei' (Romanos 12:19), que apela aos homens para não se vingarem deixando os actos de ira com Deus pois a sua justiça é divina, foi abertamente adoptada pela cultura urbana. Mas de uma forma distorcida. Se Deus vinga, por que não há-de o Homem, feito à imagem de Deus, igualmente vingar? Mike Hammer, de Mickey Spillane, vingou ('Vengeance is Mine', 1950) e Shohei Imamura ('Vengeance is Mine', 1979) vingou também.

men under the influence (3)

Shohei Imamura colaborou no início da sua carreira com Ozu, afastando-se posteriormente por duas diferenças conceptuais: 1) divergência na direcção de actores, criticando a rigidez do mestre; e 2) desinteresse pela temática de Ozu, um retrato íntimo e meticuloso da classe média do pós-guerra japonês. Da experiência comentou: “I wouldn’t just say I wasn’t influenced by Ozu. I would say I didn’t want to be influenced by him.”

29.3.09

men under the influence (2)

Philip Marlowe, criação literária de Raymond Chandler, é o estereótipo do hard-boiled detective. Durão, cínico, machista e mulherengo é da mesma forma (ou por conseguinte) um solitário desiludido. Este tipo de anti-herói que pela justiça se move muitas vezes à margem da Lei não é necessariamente uma novidade que aparece com Chandler —lembremo-nos de Dashiell Hammett muito antes— mas é com ele que define os seus contornos. A independência de Marlowe tornou-se uma imagem de marca para o género. No boss, no wife, no children; um cruzado por conta própria. Este género virá depois em (quase) todos os livros de Mickey Spillane, sendo no entanto explorado para lá de qualquer limite socialmente aceitável. Ou seja, Spillane pegou na receita para de seguida estalar-lhe o verniz.

men under the influence



Os primeiros minutos de 'Tsuma yo bara no yo ni' (é impossível decorar isto), de Mikio Naruse, sugerem imediatamente o que será o tom do filme. Esses breves momentos onde se mostra a cidade moderna e repetitiva preenchida pela multidão, com a câmara colocada abaixo do ponto de vista do observador, levam-nos a uma apresentação intimista da modernidade num Japão tendencialmente (e estou a referir-me àquele ano de 1935) tradicional. O filme acaba mesmo por explorar um tema íntimo e familiar —a separação matrimonial e o consequente estigma cultural— numa sociedade em transformação, indo assim ao encontro das impressões causadas pelas imagens iniciais. Mas o que mais me despertou o interesse nessa sequência foi a semelhança com a chapa de Walker Evans (direita), da série das ruas de Chicago de 1946. O efeito é o mesmo, de facto, embora o propósito para o dito efeito seja um pouco diferente.

das improbabilidades

No Largo de Camões, sexta-feira à noite, uma rapariga de franja escorregou mesmo ao meu lado na calçada. Prontamente eu e outro rapaz ajudámo-la a levantar-se. Foi uma pena nesse momento eu estar igualmente a falar ao telefone, caso contrário, quando ela agradeceu, ter-lhe-ia dito que há uns anos num dia de chuva aconteceu-me o mesmo mais ou menos naquele sítio. Uma improbabilidade. Ou talvez não, pois com estas calçadas luzidias que Deus nos deu tal coisa deve ali acontecer a muita gente.

27.3.09

reflexões durante o jogging

Aprendi-o em doze anos de râguebi mas a própria vida também me o poderia ter ensinado: derrota não é cobardia. Cobardia é outra coisa. Falta de comparência, por exemplo.

voyage autour de mon quartier

Ao viver actualmente numa paralela à Av. da Liberdade a minha vida distribui-se pela oferta local. Do Cabaret Maxime à Crew Hassan, da Cinemateca ao D. Maria II, da papelaria internacional do elevador da Glória ao jogging pelo Parque Eduardo VII. Estico-me até ao Chiado, quanto muito, e por vezes um pouco mais até à Bica, é verdade, tal como também não deixo de correr na margem do Tejo até Belém de vez em quando se me lembro. Mas o que me ocorre é que de todos os sítios por onde tenho vivido — do Restelo à Ajuda, da Gràcia ao Born, do Harlem ao Upper West, da East Village a Williamsburg — não deixei nunca de ser um bairrista preguiçoso. Ou se quisermos ser mauzinhos, assim como uma espécie de Henry Louis Mencken, podemos dizer que tamanha inércia para sair do bairro não é mais do que um reflexo do provinciano que há em mim. E alentejano, ainda por cima. O que pondo as duas coisas ao lado uma da outra nos leva ao conhecido ditado popular junta-se assim a fome à vontade de comer.

ontem, no Maxime

Ontem fui ao Cabaret Maxime para ouvir a 'Barbarella' do Samuel Úria mas este ao acabar a sua parte ainda não a tinha cantado. Meio furibundo, tive então uma surpresa depois do intervalo. Márcia, de seu nome. Cantou originais em português, inglês e francês, denunciando um certo cosmopolitismo sentimental e através de uma presença em palco sozinha com a sua guitarra provocou uma evocação visual e sonora que me levou, com as devidas distâncias, nada mais nada menos do que a Cat Power. No fim voltou o Úria ao estrado e escutei finalmente, já sentado num degrau a um canto, a 'Barbarella' a duas vozes. A caminho de casa fiquei a pensar o quão verdade é o facto de gostar de ouvir, como uma vez me disseram, senhoras que cantam muito baixinho e devagar.

25.3.09

of young women and pets



'Au hasard Balthazar' (1966) é o filme mais terno que conheço do cineasta francês. Embora Bresson continue a explorar temas que lhe são queridos, como o «Acaso», o «sofrimento» ou a «provação», há paralelamente uma apologia à ternura que não encontrei nos seus filmes anteriores. Não é feita de uma forma visualmente gratuita, pelo simples afecto da jovem rapariga, Marie, perante o olhar passivo e melancólico do burro, Balthazar. É uma ternura mais profunda do que a física, mais emocional do que táctil. Marie entrega-se a esta pois Balthazar — ainda que uma metáfora de Bresson para o Acaso — representa igualmente a bondade e o altruísmo. Ele nada pede em troca; está apenas lá. Quando Balthazar começa o seu percurso errático de dono em dono, Marie vai da mesma forma descobrindo o mundo sozinha. O amor, o desprezo, a derrota, a ganância, a violência são-lhe dados a conhecer aos poucos por todos aqueles que a rodeiam. De igual maneira Balthazar vai percorrendo as variantes da espécie humana, da barbaridade ao oportunismo. No fundo, a bela e a besta são o mesmo, casuais vítimas da crueldade do Homem e do Destino. Marie sente em Balthazar o refúgio. É por isso uma ternura diferente.

23.3.09

of single women and pets

Há um tipo de mulheres que gosta de cães mas se não tem espaço em casa para ter um, rapidamente se esquece e decide ter um gato. Ou pior, escolhe um cão que pelo tamanho pareça um gato. Geralmente o comportamento destas senhoras é o mesmo em relação aos homens. Querem uma coisa, mas se existir alguma contrariedade também ficam bem com outra. Uma ténue linha, esta que vai do pragmatismo à falta de exigência.

of single women and pets

É curioso constatar que uma mulher ao escolher um animal de estimação é influenciada por motivos relacionados com a falta de alguma das seguintes coisas: espaço para o bicho, tempo para o bicho ou tacto para o bicho.

21.3.09

o foyer também conta (2)



Histórica cena de 'Annie Hall' (1977) no foyer do antigo Walter Reade Theater da Film Society do Lincoln Center. Não necessariamente um local sóbrio e tranquilo, mas vê-se a rua lá atrás. E o foyer também conta.

do ritual de ir ao cinema, o foyer também conta

A questão do desaparecimento dos cinemas de rua em detrimento dos instalados em centros comerciais tem sido discutida por muitos cinéfilos nostálgicos. O que faz todo o sentido. Ir ver um filme ou ir ao cinema são coisas diferentes. Ir ao cinema é um ritual que incorpora diversos passos: a sessão e os momentos pré e pós. As salas encafuadas em superfícies comerciais herméticas e despersonalizadas têm a vantagem de oferecer melhores instalações (leia-se cadeiras e espaço entre elas) mas mesmo assim não as tornam atractivas para quem está na disposição de ir ao cinema como um ritual e não apenas com a finalidade de ver um filme.

Este parágrafo disperso não deverá ser interpretado como um ataque às salas em centros comerciais (valem o que valem e ainda bem que também existem), serve apenas de introdução conceptual para um elogio à «resistência» das salas tradicionais. A Cinemateca Portuguesa, embora seja um exemplo mais institucional, é, e como não poderia deixar de ser, o paradigma de uma sala de cinema propícia ao ritual: um curto passeio pela Avenida, a chegada a um local sóbrio e tranquilo, a projecção em si e o regresso calmo a casa ou ao carro (estrategicamente afastado para aproveitar o passeio). Junte-se a isto a qualidade de uma programação variada (cinco sessões ao dia) que proporciona o acesso a visualizações raras (destaque para os actuais ciclos dedicados a Mikio Naruse; ao Neo Realismo e a Robert Bresson) a um custo máximo por bilhete de 2,5.

Cinemateca ou Film Society, King ou Film Forum, Londres ou Lincoln Plaza, S. Jorge ou Angelika SoHo. Lisboa ou Nova Iorque, o importante é que ainda se pode ir ao cinema. E nestes tempos de hipermodernidade eu elogio os que nos permitem isso.

19.3.09

a assimilação da «desestruturação»



Ao reler o post anterior fico com algumas dúvidas quanto à palavra «desestruturação». De qualquer forma, mesmo sabendo que para quem o leia o seu significado possa ser intuitivo, consulto um dicionário de Língua Portuguesa (o da Academia, pois claro) para me certificar se o vocábulo existe só na minha cabeça ou em toda a parte. Encontro «desestruturar», o que já não é nada mau, (v. fazer perder ou perder a disposição, a ordem lógica de acordo com um plano, uma forma, um sistema), e «destruturar», (v. fazer perder a organização ou coesão internas). Dos dois verbos em questão, apenas «a acção de destruturar» evolui para um singular feminino: «destruturação». Isto deixa-me piurço a pensar por que raios funcionará para uma e não para outra. Consulto depois o Houaiss —os brasileiros são gajos pragmáticos— e afinal está lá: «desestruturação. s. f., acção ou efeito de desestruturar(-se) 1. desfazimento de estrutura, sustentação, organização; desordem, desorganização 2. p. ext., perda do referencial; perturbação (desestruturar + ção).»

O fenómeno da língua viva manifesta-se por aqui. Sorrateira e inconscientemente. Ou por alguma razão que desconheço a minha cabeça devia estar no Brasiu.

17.3.09

a alma siciliana e o homem de Kaos

'Esta Noite Improvisa-se' (1930), de Luigi Pirandello, com a confusão em palco povoada de desestruturações, rupturas, gritos, sobreposições, discussões, agressões e calúnias, é a par de uma revolução teatral um irónico reflexo da alma siciliana. Mas vendo a peça em português, (pelos Artistas Unidos), não consigo deixar de imaginar o que será vê-la no seu original em italiano. Apurará concerteza com certeza o requinte de malvadez idealizado pelo homem que nasceu num vilarejo siciliano com o improvável nome de Kaos. Toponímia que se mostrou, como aliás se nota, deveras adequada à obra do dramaturgo.

postcards from the suburbs

'Yours Truly, Postcards from the Suburbs', explora a imagética suburbana norte-americana. É um exercício reflectivo sobre uma iconografia específica, quasi-implícita e amplamente reconhecível no imaginário colectivo. Como um postal-ilustrado que capta um determinado ícone — geográfico, histórico ou pitoresco-regional — as fotografias apresentadas assumem-se igualmente como «colectoras de ícones». No entanto, fazem-no debaixo da assunção paradoxal de estes não serem objectos notáveis, como por exemplo o é uma «montanha», uma «igreja» ou um «monumento», mas sim objectos comuns e seriados.

'Yours Truly, Postcards from the Suburbs' estará patente ao público de 17 de Março a 11 de Abril na Galeria Pedro Serrenho Arte Contemporânea, em Campo de Ourique, Lisboa.

16.3.09

Narcotics, abortions, or were you by any chance a medic for the gang boys in some hot Eastern city?

O hardboiled detective Philip Marlowe em 'The Little Sister', (1949) de Raymond Chandler, edições Ballantine Books; para a pergunta do Sérgio Lavos. Apesar de já por aqui ter mencionado a quinta frase completa da página 161 da leitura actual a outra pessoa há algum tempo, (um ano ou assim), esta é uma daquelas respostas que está constantemente em mutação pois estamos sempre a ler coisas diferentes. Embora, e mesmo sendo este um apontamento supérfluo à essência da pergunta, deva acrescentar que por vezes há leituras que levam bem mais tempo do que isso. No meu caso a 'Bíblia' é precisamente um bom exemplo, visto que em quinze anos ainda não passei do Antigo Testamento.

13.3.09

a ferro e fogo

E como um herpes ou qualquer outra porcaria na pele que ataca quando estamos em baixo, também as recordações de merda se aproveitam das nossas momentâneas fraquezas de espírito. Talvez por isto te reveja agora até à exaustão, dia e noite, em tangos canalhas nos bares do sul, onde as luzes ténues disfarçavam sussurros transpirados com desconhecidos. O teu olhar cruel; sobretudo isso. Gravado a ferro e fogo.

11.3.09

Gordon mata Clark

Imagens de 'Tulsa', de Larry Clark; (o da direita)

no dona maria segunda

Enquanto levantava os bilhetes para o 'Esta Noite Improvisa-se', do Pirandello com encenação de JSMelo, reparei no programa para o resto da temporada. 'Miss Julia', do maníaco-depressivo Strindberg e 'August: Osage County', de Tracy Letts, o tal ideal para um Dia de Graças. Faz sentido. Teatro Burguês num teatro burguês.

9.3.09

copyright image: Larry Clark, from 'Tulsa'

Enquanto cineasta, as preocupações de Larry Clark nos anos noventa centravam-se maioritariamente nos reflexos de uma sociedade densa, urbana, agressiva e alienada nos adolescentes. Sendo a adolescência um marco transformativo, iniciático e experimental, Clark debruçou-se sobre a procura da identidade sexual, o uso de drogas, a violência física, a vulnerabilidade psicológica e a erosão do núcleo familiar neste período. Com base nesta abordagem, para uma melhor compreensão da obra cinematográfica de Larry Clark há que ir mais atrás no tempo e começar duas décadas antes pela fotográfica. Embora sendo duas perspectivas diferenciadas, as suas publicações 'Tulsa' [na imagem] (1971) e 'Teenage Lust' (1983) antecipavam já aquilo que viria a ser a sua temática no cinema. Em 'Teenage Lust', Clark joga com imagens intimistas e explícitas de um universo adolescente e errático —algumas delas visualmente re-interpretadas nos seus filmes. Porém, é 'Tulsa' o trabalho magno e original do norte-americano. Neste livro Clark revela um quotidiano de drogas duras, sexo colectivo e armas-de-fogo de um grupo de jovens adultos na provinciana cidade de Tulsa, Oklahoma. Um conjunto de imagens cruas que detém uma particularidade: Clark, sendo o fotógrafo, é igualmente uma das suas próprias personagens. Desta forma abriu as portas para um novo método de documentário fotográfico pós-moderno, urbano, decadente, marginal e íntimo no qual o autor faz igualmente parte do objecto de registo. Depois dele vieram Nan Goldin, Boris Mikhailov ou a recente Jessica Dimock.

4.3.09

outro exemplo

Ainda sobre as possíveis condições asfixiantes da criação literária, embora diferente da enumerada no caso de Joseph Conrad, lembremo-nos de outro exemplo. A personagem 'O Jovem', de 'A Noite Canta os seus Cantos' do dramaturgo norueguês Jon Fosse. Vítima de um marasmo criativo e de um desinteresse editorial, chegou ao jovem escritor primeiro a misantropia, depois a apatia e por último um valente par de cornos antes do suicídio final. Agora, mesmo sendo este um exemplo fictício, se isto não é uma asfixiante condição da criação literária então não sei o que será.

experimentemos em inglês, o que faz todo o sentido

Numa colectânea de ensaios, ('Essays on Remarkable Photographs', Aperture, 2005), Domenic Willsdon, dissertando sobre a conhecida 'Aegean Sea, Pilíon' de Hiroshi Sugimoto, refere que os títulos têm a capacidade de apelar a outras histórias que a própria imagem não incorpora. No caso da fotografia em questão, um mar tranquilo e deserto em dia de nevoeiro no qual desaparece a linha do horizonte, o ensaísta, unicamente através do título, remete-nos para uma determinada leitura subliminar: mitológica e cultural, geográfica e histórica. Sabendo de antemão esta importância rotular em detrimento do paradoxal sem título, preparo há já algum tempo doze títulos para doze imagens. Dado o objecto no qual elas incidem ser suburbano, vulgar e prosaico, neste momento todos os pensados me soam a originais pimba. E o pior de tudo isto é que o soberbo 'Querido Mês de Agosto' já tem dono. Por duas vezes.

3.3.09

não te preocupes Marcello,

Marcello Mastroianni, no set de 'Ieri, Oggi, Domani', a olhar para o decote de Sophia Loren

que esfregaríamos todos.
As mãos, obviamente.

o Molière que há em mim

Desperto-me relativamente cedo pois não sou do género de o fazer tarde, axioma que repito a mim mesmo e a todos os demais; ou pelo menos tão tarde como comparativamente me deito, conclusão que em prol da verdade acabo sempre por acrescentar.

2.3.09

de escrever

Joseph Conrad só escreveu o que escreveu porque o viveu. Mas também só o escreveu porque já não podia vivê-lo mais. Assim é a Literatura, por vezes elevada a tão asfixiante condição.

o caso



Imaginemos o caso. Como um exemplo prático para uma metodologia a seguir. E depois disso pensaríamos — e daríamos as Graças — que seria inexistente a ulterior convivência com os hipócritas, cobardes e pedantes que geralmente transbordam a sua «grandiloquência» para as vidas alheias. Mas seria um erro. Mudar tudo, como o homem que foi Mattia Pascal, não leva necessariamente a lado nenhum. A mediocridade de carácter, alma ou espírito, como se sabe, está por toda a parte. Molière, mais uma vez, também já falava nisso.

27.2.09

Os pregões da modernidade, anunciando butano ao invés de peixe, acordam-me ao ecoar pelas ruas estreitas. Pelas nesgas da gelosia identifico os responsáveis, jovens indianos que percorrem os labirínticos quarteirões vendendo bilhas de gás. Gosto de manhãs e as daqui sobretudo pela sua luz, que em dias generosos como o de hoje atravessa o casco antiguo e se perde lentamente pelas promíscuas fachadas de pedra chegando ao chão em vítreos reflexos dourados. As vizinhas da frente ainda dormem, de persianas abertas que deixam entrever os seus corpos enrolados em lençóis claros. Ducho-me numa casa de banho com vista para um pátio interior carregado de varandas decoradas com roupa estendida, máquinas de lavar ferrugentas, cães de porcelana e gatos de carne e osso, bicicletas, velhas com toucas no cabelo e uma jovem escandinava que rega vasos de cannabis antes de ir trabalhar. O pão fresco vende-se na esquina do carrer Montcada. Pão de Pagés, o único que por aqui é verdadeiramente digno do nome de Corpo de Deus. Entre as apertadas ruas a caminho da padaria cruzo-me uma vez por outra com algum casal de turistas que se aventurou para cá do Museu Picasso, este território medieval e enigmático que alberga ainda os despojos da noite e dos vícios obscuros, nossos e de outros tempos, e de onde as putas africanas há poucas horas largaram o seu habitual turno de sedução.

26.2.09

dos livros

Há quase dois anos, antes de ir, deixei umas dezenas de livros na minha casa de Barcelona. Depois, do outro lado do Atlântico, acabei por deixar a casa também. Durante este tempo eles continuaram por cá, não tão longínquas terras catalãs, armazenados em caixotes de papelão povoando ligeiramente as minhas preocupações. Recupero-os agora e penso nas palavras que uma noite escutei: os livros que lemos em determinada altura são mais do que apenas livros, são igualmente diários — ou em última análise serão provocadores de registos mentais — de outras e muitas coisas que não vêm nas suas páginas. Penso nisso, este momento ao folheá-los. Registos de uma música específica que por aqueles dias se escutava on repeat, de uma característica luz que invadia a sala, de uma reacção alheia provocada por uma citação. Os livros, por dentro e por fora, são mesmo uma parte de nós.

24.2.09

'King and Queen', copyright Diane Arbus

Escusado será dizer que o mês de Fevereiro reúne os dois momentos mais burlescos do ano. O Carnaval, uma ode ao grotesco, e a noite de S. Valentim, ritual não menos carnavalesco. Por isso um bom momento, embora tal desculpa não fosse verdadeiramente necessária, para nos lembrarmos mais uma vez de Diane Arbus. Uma dessas poucas pessoas, como Pasolini por exemplo, que viu Fevereiro em todos os meses do ano.

20.2.09

el señor Monclús

Depois de quase dois anos, período durante o qual entreguei a complexidade do meu cabelo encaracolado à habilidade de uma matrona russa, cinquentona e bebedora de vodka nas horas de serviço na barber-shop da Metropolitan Ave, regressei hoje ao senhor Monclús, barbeiro no Barrio Gòtic e filósofo nas artes capilares e da psicologia feminina. A conversa, naturalmente muita como é apanágio da sua classe, versou sobre temas como a América, Obama, o penteado de Obama, Bush, o pentado de Bush e o porquê das traições de mulheres casadas com o melhor amigo dos maridos. Só depois, ao sair da barbearia e parar diante da vitrina da chapelaria do carrer d'Avinyó, estudei calmamente o meu reflexo e tentei perceber mais uma vez porque continuo a ir ao senhor Monclús. Pela conversa, parece-me; talvez apenas pela conversa, pois no que toca ao corte de cabelo é sempre e inevitavelmente para esquecer.

Enfim, como eu gostaria de ter o cabelo parecido ao do Dana Andrews. Seria tudo muito mais fácil.

18.2.09

milfs, those ladies we'll follow home

E facilmente me ocorrem outros casos parecidos: Vicky LaMotta, ex-mulher do Ragging Bull, Farrah Fawcett ou Nancy Sinatra. Todas com mais de cinquenta anos quando posaram nuas para a Playboy. Afinal, como alguém disse, os 50 são os novos 40. Um delico-doce efeito da hipermodernidade.

the beautiful persists



O tema (e a admiração) do (e pelo) amadurecimento feminino sempre foi uma constante neste blogue. Basta pensar na quantidade de vezes que o acrónimo milf ou o termo mulher madura encheram estas linhas — ou fotos, sem as referidas classificações, de ambas as coisas que por vezes são exactamente a mesma. Calculo que esta foto de Lauren Hutton tão-pouco necessite de qualquer tipo de legenda; excepto talvez para dizer que foi tirada no ano em que eu nasci, tendo ela trinta e quatro anos na altura e que vinte e sete mais tarde, aos seus sessenta e um, posou nua para a Big Magazine.

Debaixo do título Lauren Hutton: The Beautiful Persists.

17.2.09

the girls we followed home

Há um poema de Charles Bukowski que incide sobre as meninas que um dia acompanhámos a casa. Facilmente compreendemos que o poema tem uma pujança particular remetendo o sujeito, neste caso o poeta, e o objecto, no caso de Bukowski sempre as mulheres, para a idade maior, a velhice. Mesmo assim, numa observação mais ampla, não deixará de ser igualmente um reflexo pluri-geracional. Porque se aos setenta as meninas que um dia acompanhámos a casa são agora as senhoras de cabelos brancos e bengalas ou de pantufas em lares de dia, aos trinta elas são as mães atarefadas, as profissionais responsáveis, as carreiristas de sucesso, as aborrecidas mulheres fiéis. E embora aos trinta continuem a mergulhar nas ondas de espuma branca ou a encher os corpos de óleo bronzeador, há algo de jovial que se perdeu nelas, que se perdeu na exigência das suas obrigações sociais. Por isso, aos 30 ou aos 70, as meninas que um dia acompanhámos a casa estão sempre e naturalmente algo mais maduras do que aos 20 estiveram; mais pesadas, menos aventurosas, mais cansadas. Progressiva e inevitavelmente.

No fundo tudo isto poderá ser perfeitamente normal, o ritmo da vida, chamam-lhe alguns, mas a força intrínseca desta constatação dá-se pelo efeito reflectivo do fenómeno: também nós, neste caso o sujeito, estamos mais maduros, mais pesados, menos aventurosos, mais cansados do que um dia no passado estivemos. De uma forma igualmente progressiva e inevitável. O tal ritmo da vida, dizia eu, que um certo complexo de imaturidade tende a renegar e que me leva, precisamente, a um excerto de outro poema do velho gaiteiro do costume:

[...] the others had become sedate, / had become responsible / citizens with / children, jobs, mortgages, / life insurance and pet /dogs. [...]

16.2.09

o seu duplo perene

Stephane Audran

15.2.09

o que fica dos que se vão

Ficaram gravados os conselhos e as palavras de sapiência, que a idade e a longa vida lhe acumularam, e que em inúmeras vezes os transmitiu. Ficaram também as chamadas histórias de outros tempos, contadas ao género de parábolas, trazendo subtilmente muito mais do que aquilo que anunciavam; em tardes passadas à sombra de uma figueira nos agora longínquos e nostálgicos estios da infância. Mas mais do que isso ficou o paradigma de um carácter, no que a honestidade e justiça tocam. Ficou tudo isto, deixado por um amigo que se foi.

11.2.09

meo

O meu irmão mais novo enaltece as vantagens da televisão digital. Como caso prático mostrou-me um exemplo: estando fora às horas da emissão, deixou programada uma gravação. Agora, enquanto explica como tudo funciona, carrega no play e o programa começa. E eu, perante a gravação do 'Lingerie' do Fashion TV, concordo com ele. Ao ponto de também vir para aqui enaltecer as vantagens da televisão digital.

a midnight valium for a good night's sleep

Deviam ser por volta das cinco e meia da tarde quando passei por lá. Sendo Inverno, estava já escuro, mas a luz dos novos candeeiros era suficiente para iluminar o local. Cerca de sete anos passaram sem que eu cruzasse o dito sítio, fiz mentalmente as contas. Não por algum motivo em particular, apenas assim foi pois as geografias sentimentais e as urbanas andam interligadas, como as cartas de azar. Ao parar o meu carro no sinal encarnado, diante da passadeira, revi a história que um dia me contaste, passada talvez sete anos antes destes há sete anos atrás. Tu, ainda miúda, antes de mim e dos outros homens que estiveram antes de mim, de mochila às costas e com o ar inocente próprio das crianças que pensam já ser mulheres. A noite de Inverno, como esta, a chuva como a de ontem e uns candeeiros antigos e frouxos. Depois tu na passadeira, caída, desmaiada, o condutor que não te viu aos gritos a pedir ajuda, a poça de sangue, a perna dobrada numa posição impossível.

Revi tudo isto. Depois esforcei-me, mas o que eu não consegui rever foi o teu rosto.

10.2.09

dizia eu



"Por ser quem é", dizia eu.

6.2.09

sem título, um paradoxo



Por gostar desta foto de Rosalind Krauss ia escrever como título do post o habitual those ghostly traces, photographs. Mas por ser quem é Krauss, aqui retratada nos anos 1970, parece-me mais correcto transcrever uma frase sua do que a de Susan Sontag. Assume-se assim o compromisso: frase de Krauss para nova série. Para já fica como título o mui artístico e original sem título. Um paradoxo, como não poderia deixar de ser.

às vezes penso que gostava de ter o cabelo à Dana Andrews

De um certo ponto de vista 'O Presumível Inocente' (1990), de Alan Pakula, toca em alguns aspectos 'Laura' (1944), de Otto Preminger. Há no ar uma subliminar e peculiar devoção a uma morta, a um cadáver. No caso do primeiro justificada pela anterior história em comum, no segundo criada pela contemplação de uma única imagem e pelos testemunhos daqueles que perto dela viveram. Existe porém uma grande diferença: afinal Laura não estava morta, o que prova o excelso sexto sentido poirotiano da personagem de Dana Andrews, coisa que Sabich claramente não teve.

5.2.09

o presumível inocente

Em 'O Presumível Inocente' Barbara acusa Sabich, o marido (Harrison Ford), de ainda pensar na antiga amante. Sendo o tema em si recorrente entre (alguns) casais o comentário não seria de estranhar. Há no entanto um detalhe relevante: pela altura da conversa já ambos sabem que Carolyn, a amante, morreu na noite anterior vítima de um atroz crime. Esta particular situação vem ilustrar uma importante característica feminina. Mesmo mortas, física ou abstractamente, as exes serão sempre entre (alguns) casais uma sombra permanente. Estando o homem, quase sempre, no meio de tudo isto muito presumivelmente inocente.

4.2.09

o seu duplo perene

Lynda Carter

Lynda Carter, 'The Wonder Woman', a mulher maravilha.
Percebendo-se nesta foto muito bem porquê.
Algures nos anos 1970.

das lascas

No dicionário de Língua Portuguesa a palavra «lasca» tem diversos significados. Entre eles salientam-se os fragmentos de madeira ou metal ou estilhaço. Naturalmente que na gíria a palavra significa ainda mulher bonita, elegante e bem proporcionada. Há no entanto uma outra definição que me salta à vista: uma «lasca» pode igualmente ser uma espécie de jogo de azar. Esta definição existe utilizando a palavra como um substantivo feminino, mas a verdade é que não me lembro de tão licoroso sentido figurativo. Uma lasca é sempre uma espécie de jogo de azar.

2.2.09

ainda das tarefas de cicerone

Até me poderia parecer que a segunda semana foi igualmente rica e preenchida ao cumprir o meu papel de cicerone perante os amigos estrangeiros, mas a verdade é que do Porto a Coimbra, de Sintra a Sines não passei de um turista mais. O "ao menos falas o idioma" coube-me de parco consolo; mesmo sabendo que por exemplo no Porto não me entendiam lá muito bem.

30.1.09

'claws of paradise', C. Bukowski

[...] there is nothing to do / but drink / play the horse / bet on the poem
as the young girls become women / and the machineguns / point toward me / crouched / behind walls thinner / than eyelids.
there's no defense / except all the errors / made.
meanwhile / I take showers / answer the phone / boil eggs [...]

sweet sixteen e a cultura popular

Receber amigos estrangeiros e fazer de seu cicerone é a melhor forma de redescobrir certas características de uma cidade e da sua cultura, sobretudo para quem tem estado os últimos anos fora. Nesta redescoberta compreendem-se da mesma forma as recentes mutações. Assim, se há coisas que permanecem iguais, como por exemplo o fado gingão ou o cacilheiro para Porto Brandão, outras mudaram consideravelmente. A noite, em primeiro; as pessoas que estão na noite, em segundo; e nós próprios à noite, em terceiro.

23.1.09

telespetadores



David Cronenberg antecipando em 'Videodrome' (1983) uma pavorosa especificidade do nosso recente Acordo Ortográfico. Telespetador, s.m., aquele que vê televisão e aquele que igualmente a espeta.

ainda sobre mencken

Às páginas tantas, na 85 para ser exacto, Mencken aponta no seu característico tom satírico uma terceira razão para não abandonar os Estados Unidos, não obstante, e nas suas palavras, os incitamentos lascivos de muitos expatriados para a eles se juntar. Refere assim a ideia de um país-espectáculo cativante pela oferta de um entretenimento peculiar e inigualável (pensava ele): peixeirada entre demagogos, elaboradas tramóias pelos ases da trafulhice e caça aberta às bruxas e aos hereges.

Mas agora pergunto-me: e se Mencken, popularmente conhecido como o Sábio de Baltimore, preferiu não sair da América por saber que tal como ele tinha elevados preconceitos culturais em relação à grande maioria dos seus conterrâneos, ao ir para a Europa não iriam da mesma forma os europeus exercer esse sentimento de superioridade perante ele, um «americano»? É bem provável, pois preconceitos há em todo o lado e assim sendo, mesmo nos anos '20, já era sempre melhor ser sábio em casa própria do que burro em terra alheia. Ou então esta conclusão é apenas um reflexo do Mencken que há em mim a falar.

22.1.09

mr. mencken



Parece assim uma especiezinha de Schopenhauer tardio à la américaine.
Ou seja, um mau-feitio que não lembra nem ao diabo.

on being an american

O norte-americano Henry Louis Mencken, em 'On Being an American' (da série 'Prejudices'), num culto cínico e provocador de elitismo cultural afirma no início do segundo capítulo em jeito de resumo —embora não se devam menosprezar para o tema os dois seguintes— que "Os Estados Unidos são essencialmente uma comunidade de gente de terceira categoria; esta é uma distinção fácil de fazer devido ao baixíssimo nível de cultura, de informação, de gosto, de capacidade critica e de competência."

Dando o tom, continua depois num registo semelhante no qual todos os elementos da sociedade —de colonos a pioneiros, de canalizadores a intelectuais, de políticos a jornalistas— são alvo da sua prolixa verborreia acusatória. Mencken mostrava assim, no ido ano de 1922, algo sintomático da «sua» mas também da «nossa» actualidade: being an american —e o que quer que isso signifique— pode igualmente ser being an anti-american.

21.1.09

dos eternos românticos

Sempre fizera leituras erradas dos homens. Julgava-os francos quando não o eram; maltratava-os desconfiada e com um feroz instinto de auto-preservação quando eles não o mereciam. Um dia conheceu Alain, um playboy de renome daquela praia francesa. Tinha charme, comentara mais tarde a uma amiga, e era um connoisseur; da vida e das mulheres. Ela sabia, ou assim se convenceu, de que ele não serviria para muito mais do que para uma aventura, divertir-se por uns breves tempos e posteriormente cada um seguiria o seu caminho. Disse-o a Alain, que bateu com a porta no minuto seguinte. O que demonstrou que afinal era um homem sério, nem que fosse apenas como ideal.

19.1.09

da delico-doce madeira de acácia e seus acabamentos

Ignorando as condições atmosféricas, passadas, presentes e futuras, concluo finalmente a montagem de uma mesa em madeira de acácia para o terraço. Devido à obrigatória protecção para as mui variadas amplitudes térmicas, da chuva de Inverno ao sol de Verão, a madeira vem revestida com um líquido de origem resinosa que tresanda a merda. No catálogo, a mesa aparece classificada como um produto exclusivo para o exterior. E eu, perante isto, não poderia estar mais de acordo.

16.1.09

jayne, a man's field

Jayne Mansfield

very fast, very past

'Uma imagem vale mil palavras'.
Não me ocorre outro ditado popular igualmente tão hipermoderno.

nyc 10989, magnum photos

Folheio com calma o livro, 'New Yorkers as seen by Magnum Photographers', que tinha há algum tempo na lista de espera das leituras em atraso. Seguindo o conceito de Barthes, o meu punctum dá-se ao chegar à pagina oitenta e tal; mesmo depois de atravessar séries de imagens que remontam à minha memória quotidiana da cidade que nunca dorme; por Alex Webb no Financial District, onde trabalhei, à cena de estalada entre dois homens na linha L, a mesma que usei diariamente a caminho de casa em Williamsburg, por Elliott Erwitt. Olhei a fotografia surpreso, desconhecia-a. É uma imagem simples, despretensiosa, urbana e tranquila. Tem por título 'a newly arrived immigrant eats noodles on a fire escape'. Ela é isso, de facto, mas é para mim muito mais do que isso.

**

Podemos dividir o campo visual em dois planos distintos. À esquerda revela-se uma rua movimentada, numa cota inferior, e o facto de ter mais trânsito em direcção a sul demonstra que a hora do dia será talvez pouco depois das cinco da tarde, altura em que o fluxo para Brooklyn —a Manhattan Bridge está a um quarteirão— começa a aumentar. Não há sol nem sombras. As fachadas, de cinco a seis pisos, estão decoradas com reclamos de ourivesarias e de diamantes. No plano direito da fotografia está um homem asiático sentado num degrau de umas escadas de incêndio, no patamar exterior do terceiro para o quarto andar. Está apenas de cuecas e chinelos, de pernas cruzadas. Com a mão esquerda segura uma taça da qual sorve distraidamente, com a direita os chopsticks e parece ignorar o fotógrafo à sua frente, demonstrando uma certa intimidade.

**

É esta a pensão, a minha lodge de Chinatown. Aquela em que por aqueles dias (no final da primeira estadia) chamei neste blogue de Os dias do China Hotel e na qual fiquei por mais de um mês, alternando períodos de seis, sete noites num cubículo do quarto andar com outras passadas noutros sítios. Foi aqui que estive mais só do que nunca e do que em qualquer outro lugar. E foi também aqui que de alguma forma me reequilibrei, recompus e preparei o regresso à normalidade, com apenas a companhia de cigarros american blend como conselheiros nocturnos. Exactamente nas escadas-de-incêndio desta foto, onde se vê um emigrante recém-chegado a comer uma sopa de massa chinesa no ano de 1998, uma década antes de mim. Não há engano possível.

15.1.09

não te preocupes sophia,

Sophia Loren espreita o decotezorro de Jayne Mansfield; foto de Joe Shere

que olharíamos todos.

bone lonely, obra ao negro

'Bone Lonely', um conjunto de 32 (ou 33?) fotografias a preto e branco —pequenas, sujas, escuras e cheias de grão— de Paulo Nozolino, dá o título à exposição. Nestas imagens dispersas, espacial e cronologicamente, o autor agrupa elementos essenciais e característicos da sua visão particularmente enegrecida e pessimista do mundo. Nozolino (1955, Lisboa) percorre o lado obscuro das cidades e da sociedade, registando texturas, sombras humanas, rostos anónimos, vazios urbanos, despojos domésticos.

Encarna o papel do observador invisível, ele próprio uma terceira sombra, que capta a memória e os momentos daquilo e daqueles que nada de sedutor exercem no imaginário global das chamadas sociedades desenvolvidas e assépticas. Nozolino denuncia uma podridão latente e escondida, sendo a «escondida» por vezes visível e ignorada, e reforça assim a solidão de um mundo marginal —físico e abstracto. Mas não é o acto de denúncia o veículo condutor do seu trabalho; este é apenas uma consequência da sua auto-exorcização enquanto homem, da sua procura pela Beleza & Horror entre a decadência e a banalidade.

Acoplada a Nozolino está a aura do fotografo incondicional, do caminhante errático para o qual a «viagem» é a indissociável parte do processo. E uma vez mais, como ele próprio comenta, é no vazio de quartos de hotel que revisita os seus medos e erros. Talvez por tudo isto o que vemos em Paulo Nozolino é também um bone lonely, um esqueleto solitário.

13.1.09

nobody in my books drinks cognac
because I can’t spell the word




Ou o porquê de todos beberem whisky duplo com gelo.

o espectro de Lipovetsky

'Bone Lonely' é mais um trabalho de dissidência em relação à hipocrisia global que tenta vender a imagem da felicidade às pessoas. Sinto-me só, sinto-me desiludido, mas por outro lado há uma espécie de serenidade interior por ter chegado a estas conclusões.

Paulo Nozolino, no Ípsilon, sobre o seu mais recente trabalho.

12.1.09

o espectro de Hammershøi

'Intimacy', copyright de Rita Magalhães

Primeiro em Carl Th. Dreyer, agora em 'Intimacy';
um belo e melancólico trabalho de Rita Magalhães.

a colecção BESarte, educação pública como um segundo acto de mecenato

A colecção BESarte Foto, iniciada em 2004 e agora parcialmente exposta no CCB (imperdível e com entrada gratuita), é a chamada colecção by the book. Através do seu objecto central, a fotografia (e dentro da fotografia essencialmente a fine-art photography), reunem-se alguns nomes-chave da história do meio a partir dos anos 1960/70 do século XX e muitos novos autores do século XXI. A opção por artistas de referência (nacionais e internacionais) serve de suporte à colecção; uma escolha de obras emblemáticas e singulares em detrimento de séries de um mesmo autor permite uma maior variedade de estilos e abordagens; e a aposta paralela em gerações mais novas e em ascensão traz a contemporaneidade e vanguarda. Estes elementos, ou as bases que estruturam a selecção de obras, são explicados na introdução do livro/catálogo por Alexandra Fonseca Pinho, a curadora da colecção (e não da exposição).

No acervo de mais de quatrocentas e cinquenta obras, impressionantemente reunidas em apenas quatro anos, há uma segurança na escolha de fotógrafos consolidados mundialmente que garante o investimento (pois uma colecção privada é também e sempre um investimento) e existe igualmente um interesse em nomes novos e com potencial internacional, um acto de mecenato. Ainda de salientar que esta aposta cultural do BES, claramente um paradigma, vem ao mesmo tempo abrir portas ao meio (to the medium) num acto de educação pública —ou um segundo acto de mecenato— para um país no qual a fotografia (e sobretudo a fine-art photography) não tem (ou pouca tem) qualquer expressão comercial.

mesmo a calhar

Agustina Bessa-Luís na revista LER deste mês. Vem mesmo a calhar.

10.1.09

A Sibila

Bastou-me chegar ao final do Capítulo I para perceber que não vale a pena continuar a dobrar os cantos às páginas, um velho vício do qual sofro para marcar algo relevante na leitura. A escrita de Agustina Bessa-Luís é singularmente poderosa, sendo por conseguinte difícil escolher algumas passagens em detrimento de outras. Passando a hipérbole, todas as linhas são notavelmente pungentes na dissecação e na análise da condição humana e dos mecanismos da mente e espírito, suportadas por uma astuta capacidade de distanciamento e observação; mesmo que —como é o caso de 'A Sibila' desenrolada maioritariamente num ambiente rural— remetidas para um espaço físico e temporal tão distante da hipermodernidade que geralmente me assombra.

a ligação por prevenção, ou o «estilo hamletiano»

[...] e o facto de se ligar irremediavelmente a Maria representava um golpe de defesa que corrigiria muitos desvarios a que se sabia sujeito. Este traço do seu carácter transmitiu-o depois a quase todos os filhos, e podia definir-se pelo «estilo hamletiano», [...].

Em 'A Sibila' (1954), de Agustina Bessa-Luís, naquilo que me parece ser a primeira de múltiplas transcrições.

9.1.09

Hélas



Tanta merda e afinal aos seus olhos não foi mais que Pétain.
Um dia um magno herói, outro um comodista traidor.

Hélas.

o ponto de equilíbrio

Se há coisa que não muda são pessoas, como se tem eternamente dito, mas tal como as pessoas tão-pouco mudam as relações entre as pessoas. Ambas podem evoluir, separadamente ou em conjunto, mas a essência de cada uma é imutável. O que geralmente acontece é que nessa evolução se tenta encontrar um «ponto de equilíbrio» que posteriormente deverá ser mantido através de um certo e particular esforço, inconsciente ou não, no qual todas as partes se digladiam mais ou menos secretamente. Estas ditas partes serão, por exemplo numa pessoa, as deficiências de espírito e fragilidades de carácter, defeitos reconhecíveis, e a tentativa em combater, camuflar e renunciar a sua totalidade face aos padrões que aspira; humanos, morais, sociais, relacionais. Numa relação, cada parte é naturalmente uma das pessoas que procura seguir um fio condutor, balizado pelo «ponto de equilíbrio» dela própria, que sabe não poder ultrapassar em favor de uma esperada harmonia.

É este esforço, tido nestes parâmetros como uma evolução pessoal, que caracteriza a posterior evolução relacional e faz com que esta última pareça forte, próspera e consistente. Mas se há coisa que não muda são as pessoas, como se tem eternamente dito, e por isso, na sua génese, tão-pouco mudam as relações entre as pessoas. O «ponto de equilíbrio», ou a sua infinita constância, é assim uma coisa muito utópica, como uma espécie de torrezinha de Babel de nós próprios.

6.1.09

o seu duplo perene

Monica Vitti

A Sara escolheu 10. Eu, pelo que sempre li da Sara, escolho ainda uma décima primeira.
A Vitti, para a Sara, pois mais uma vez bate tudo certo.

uma nova contagem

Visitei-o três vezes em diferentes alturas do ano. Movimentava-se lentamente na sua sala ampla de um apartamento no final do Upper West Side com vista para o Riverside Park. As paredes forradas a tecido e a elegância do mobiliário soavam aos códigos decorativos dos anos 1960, denunciando nos dias de hoje nada mais do que um toque feminino que há muito desaparecera. Guardava as fotos amarelecidas e gastas numa cómoda igualmente velha e nunca se cansava em mostrá-las em cada uma das minhas visitas. Eu não era eu, era unicamente uma sombra concordante e interessada para a qual ele explanava as antigas memórias.

Veio para Nova Iorque há cerca de sessenta anos, revelou-me uma vez, e embora esse período da sua vida não faça parte do rol de histórias interminável, sei de outra fonte que nasceu na Martinica Francesa e lá passou a sua infância. Foi toda a vida contabilista, com escritório próprio, de pessoas de relevo na sociedade nova-iorquina. Percorrendo os seus álbuns fotográficos percebe-se o seu mundo: as viagens para locais exóticos e idílicos, as festas luxuosas e as mulheres atraentes. Mas o que conta na sua vida só é válido a partir do momento, nos finais da década de 1960, em que conheceu aquela que viria a ser a sua futura mulher. Agora, com oitenta anos, sem filhos e viúvo há quinze, explica-me que inconscientemente despreza e esquece tudo aquilo que vem «antes» ou «depois» de ela. Eu vi as fotos e compreendo-o. Uma mulher assim pode fazer um homem pôr tudo num novo princípio, numa nova ordem, numa nova contagem. Acabou por dizer-me que era uma num milhão. Eu sei o que é isso, respondi-lhe, embora ele não tenha acreditado.

5.1.09

o lugar vazio

Em Lisboa, agora um interlúdio de outras cidades noutros países, volto a encontrar o meu velho lugar de pedra no sétimo degrau de umas escadas de mármore de uma igreja da Rua Garrett. Bom para ver quem passa, ainda que não passando alguém, é como se não passasse ninguém.

a metáfora



Ou o meu outro lugar.

a midnight valium for a good night's sleep

A janela aberta. Cigarros atrás de cigarros fumados a meias com o vento que entra no carro. Ouve-se apenas o monótono barulho do motor e a lenga-lenga dos pneus a massacrar o asfalto — hipnótica, de certa forma, tal como a perspectiva da estrada escura que teima em não levar-me a lado nenhum quilometro após quilometro, cigarro após cigarro. Assim são as noites na ressaca de ti, pelas estradas desertas do Alentejo.

2.1.09

dos pontos fracos

Relações de ouro com pés-de-barro desmoronam-se sempre em noites de chuva forte.

os 400 metros

Percorri de novo aqueles quatrocentos metros. Os mesmos quatrocentos metros que calcorreámos na primeira madrugada do ano entre chuva e nevoeiro, entre gritos e insultos. Os quatrocentos metros do teu histerismo e do meu desespero; da tua fúria e da minha incapacidade; da tua fuga desmedida e do meu medo ao imaginar-te sozinha na noite deserta e perigosa de uma cidade estranha e distante. Revi mentalmente, passo a passo, cada expressão e cada frase, cada loucura e cada falta de tacto. De hoje em diante, nestes quatrocentos metros e na minha memória, ficarão para sempre as inesperadas e improváveis imagens sombrias que se sobrepõem agora a quaisquer outras que vivemos — como um trauma, como aquelas pessoas que um dia encontram um cadáver de alguém de quem gostam pendurado na sua sala de estar.

1.1.09

lacrimae rerum

Estado Civil (2006-2008)

**

The barns are stormed
The windows kept
& only one of all the rest
To dance & save us
W/the divine mockery
of words

in 'American Prayer'
1978, Jim Morrison

31.12.08

agradecimentos finais

Não queria deixar de agradecer novamente a todos os que por aqui passaram e também àqueles que de uma forma ou outra deram a conhecer este blogue a terceiros. O meu sincero Obrigado.

Disse e repito: misantropo, mas não mal-agradecido.

Bom 2009.

de 2008 (blogosfera)

Quando o ano passado comentei que os meus blogues favoritos de 2007 já o tinham sido em 2006 e que continuariam a sê-lo em 2008 não me enganei. Isto não quer dizer que seja um homem de hábitos (que paradoxalmente em parte sou), mas sim que estes blogues são muito bons e que continuam coerentes e consistentes naquilo que sempre me seduziram. E tal como o ano passado descobri paralelamente outros blogues que me interessaram pelas mais diversas razões, também em 2008 tive boas e muito boas surpresas que foram completando a minha lista de links. Por tudo isto, é caso para dizer: a blogosfera está bem viva e recomenda-se.

cinematographers



Um ano de clássicos imperdíveis: 'Samurai Rebellion' (1967) de Masaki Kobayashi com fotografia de Kazuo Yamada; 'Letyat Zhuravli' (1957) de Mikhail Kalatozov com um grande, grande, grande trabalho de câmara de Sergei Urusevsky; 'The Human Condition' (1959/61) de Masaki Kobayashi com fotografia de Yoshio Miyajima; e 'Muerte de un Ciclista' de Juan-António Bardem com fotografia de Alfredo Fraile.

dos ausentes

Eu, mais do que qualquer outro. Este ano, mais do que nunca. Por vezes a distância física transforma-se numa distância sentimental e estar longe pode igualmente significar estar ausente —nos momentos maus e nos momentos bons— das pessoas que realmente importam.

A Liberdade nunca vem só. Vem sempre muita merda atrás na factura para pagar.

30.12.08

dos presentes

Encontrei à minha espera, entre outras coisas, uma colectânea de filmes notáveis da História do Cinema; o 'Nada de Melancolia' do Pedro Mexia; uma trilogia do Steve McQueen com a frase Um Homem de Outros Tempos escrita no verso; o 'Transa Atlântica' da Mónica Marques; e uns recortes da Ines Sastre retirados de uma revista estrangeira. Há quem me conheça bem, concluo, mas também tem uma discreta ajuda deste blogue.

O que é uma grande vantagem. Sobre mim; para mim.

29.12.08

bazar e casar

Num reencontro bienal com os amigos de sempre saltam dois grandes grupos: a) os que se piraram e se divorciaram do sedentarismo; e b) os que ficaram e se divorciaram das mulheres.

das renas

Quando na Noite de Consoada entrei no avião, encontrei todas as assistentes de bordo adereçadas com uns cornos de rena feitos de pano e arame. À que me acompanhou ao lugar larguei o óbvio e provocador 'afinal as renas voam'. Por ser totalmente ignorado retirei assim a segunda ilação da noite: as renas voam, mas não falam inglês.

22.12.08

moon photo

'Neil Armstrong na Lua', Copyright Arquivos NASA

Também foi com uma Hasselblad 500.

das coisas que batem certo

Ayn Rand, a autora do livro que deu origem ao script que deu origem ao filme que deu origem a este blogue, foi a única (e único) defensora intelectualmente credível de Mickey Spillane, o autor dos livros que deram origem aos scripts que deram origem ao filme que é a metade da metade esquerda do meu cérebro. De facto há coisas que batem mesmo, mesmo, certo. Na minha cabeça, pelo menos. Ou quanto muito na metade da metade esquerda.

21.12.08

dos tipos de pessoas

Paul Schrader abriu a onstage conversation sobre o seu filme 'Mishima, a Life in Four Chapters' com uma questão em tom humorístico: "Antes de vir para cá perguntava a mim mesmo: que tipo de pessoas se atreve a ir para uma sala de cinema em noite de tempestade de neve [nevou o dia todo], sexta-feira véspera de fim-de-semana natalício, ver um filme que demora duas horas, num idioma estrangeiro, sobre um fascista suicida homossexual japonês?".

Olhei para o público e encontrei a resposta: 1) os interessados em Schrader e 2) os interessados em Mishima. No meu caso pertenço aos primeiros. E, acrescento, ir ouvi-lo pessoalmente pela segunda vez valeu cada floco de neve no focinho.

20.12.08

compreender schrader



E depois juntar-lhe Sexo & Violência.

a life in four chapters

Depois da onstage conversation na Cinemateca de Brooklyn em Maio passado, por altura da projecção de 'Light Sleeper' dentro da retrospectiva 'Edward Lachman, Cinematographer', foi ontem possível voltar a ouvir Paul Schrader falar sobre a sua obra cinematográfica. Desta vez, no Film Forum, Schrader não era um convidado mas sim a figura de destaque — embora na noite com Lachman, como aqui referi, Schrader acabasse por dominar o interesse da assistência devido ao seu peso histórico e descontracção em público.

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'Mishima, a Life in four Chapters', foi o seu filme apresentado ontem no Film Forum. Nesta colagem, dita barroca, sobre alguns momentos da vida do escritor/dramaturgo Yukio Mishima, Schrader divide a narrativa em quatro capítulos que englobam fases da adolescência tardia até ao culminar da sua vida por hara-kiri, consequência de uma estrondosa e fracassada tentativa de coup d'état. Para além de fragmentos biográficos, Schrader inclui igualmente personagens literárias de Mishima que funcionam como metáforas e referências da vida do irreverente japonês. Explica que o fez pois o universo de um escritor, é —mais do que qualquer outro— o literário. Sendo os quatro capítulos de carácter temático e não cronológico, o realizador utiliza diferentes processos de registo dentro de cada um ao longo dos 120 minutos: preto e branco para o passado remoto; cores pouco saturadas e o estilo documental do cinéma vérité para o desenrolar da acção final; cenários oníricos com cores fortes para o universo paralelo das suas personagens literárias.

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Paul Schrader revelou histórias de produção que neste filme adquirem uma dimensão hilariante. Sendo o filme relacionado com uma figura-central do pós-guerra japonês filiada numa ideologia de ultra-direita e paralelamente homossexual, foram vários os grupos que promoveram o boicote das filmagens. Como Schrader explicou e com piada, depois de os produtores japoneses darem secretamente o dinheiro, desvincularem-se publicamente e de ficar mais do que assegurado que o filme nunca iria ser comercializado no Japão, 'Mishima, a Life in Four Chapters' foi produzido por ninguém e feito para ninguém.

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Quando confrontado com a questão de porquê Mishima, Schrader explicou a ligação. Tendo um irmão a viver no Japão naquela altura, a aura Mishima tão presente na sociedade nipónica chegou assim também a Schrader. Mas o motivo principal foi outro. Em 'Taxi Driver', que explora entre outras coisas o suicídio glorioso, o realizador foi acusado de brincar com um intelecto mais fraco na criação (e motivação) da personagem Travis Bickle. Schrader encontrou em Mishima o lado oposto, um homem intelectual e culturalmente forte, politicamente activo, (aparentemente) respeitável socialmente e que apesar de todos estes "valores" não deixou de cometer o infame suicídio glorioso.

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'Mishima, a Life in four Chapters' foi concluído em 1985 e ate à data nunca foi admitido nas salas de cinema do Japão.